Moluscos


Encontrados nos mais diferentes habitats, desde oceanos profundos até altas montanhas, os moluscos constituem um dos mais diversificados filos animais. Foram descritas mais de 75.000 espécies vivas -- tão variadas quanto o caracol, o polvo e a ostra -- e 35.000 fósseis, o que indica que o filo tem sido muito bem-sucedido ao longo da evolução.
Moluscos são animais invertebrados dotados de celoma (cavidade situada entre a parede do corpo e os órgãos internos) e constituídos, em sua maior parte, por três regiões corporais: cabeça (inexistente nos bivalves e em certos grupos de estrutura rudimentar); massa visceral, com os órgãos mais importantes, que é envolvida por um manto carnoso mole, revestido, na maioria das espécies, por uma concha calcária; e pé, musculoso e de finalidade locomotora.
Depois dos artrópodes, os moluscos constituem o filo mais importante de animais invertebrados, tanto pelo número de espécies, quanto pelo desenvolvimento e a perfeição alcançados por alguns de seus sistemas orgânicos. Presentes nos mais antigos estratos geológicos em que se encontraram vestígios de vida animal, disseminaram-se por todos os mares, deixando fósseis característicos em diversos períodos da história geológica.

CARACTERÍSTICAS FISIOLÓGICAS E           MORFOLÓGICAS

Em alguns moluscos, como os cefalópodes (polvos e lulas, entre outros), o pé se transformou, ao longo da evolução, num conjunto de tentáculos providos de ventosas. Em muitos gastrópodes terrestres, como os caramujos e caracóis, o pé é a massa muscular e viscosa que se arrasta pelo solo, última parte a se introduzir na concha quando há situação de perigo.
As camadas externas do corpo formam, na região dorsal, uma prega ou manto que segrega a concha -- estrutura mineralizada cuja função é proteger o molusco. Dos diversos componentes da concha, no máximo noventa por cento são substâncias inorgânicas, principalmente carbonato de cálcio. A espessura da concha acha-se estreitamente relacionada a certos fatores ambientais, como por exemplo o grau de acidez, a temperatura e a salinidade da água do ambiente.
Nos caracóis, a concha assume forma de espiral, enquanto nos bivalves compõe-se de duas partes articuladas (valvas), que se fecham devido à ação de vários músculos. Nos cefalópodes, a concha em geral se resume a uma estrutura cartilaginosa interna, como a "pena" da lula. Em outras classes de moluscos, o corpo pode ser protegido por várias placas calcárias que se dispõem em seqüência, como nos quítons, ou por uma concha alongada, cônica, arqueada e aberta nas extremidades, como nos dentálios. Os moluscos terrestres, como caracóis e lesmas, têm pulmões que os habilitam a respirar o oxigênio do ar. As espécies aquáticas respiram por brânquias.
No tegumento, ou tecido de revestimento, há células portadoras de pigmentos denominadas cromatóforos, que, por contração ou dilatação, provocam mudanças na coloração do animal. Aparecem também numerosas glândulas, algumas delas capazes de emitir radiações luminosas, como os fotóforos dos cefalópodes, e outras que elaboram substâncias coloridas sob a ação da luz, como a púrpura dos múrices, muito apreciada pelos antigos povos mediterrâneos.
O aparelho digestivo se compõe de boca, em geral com uma rádula ou "língua" quitinosa e áspera para ralar alimentos; esôfago e estômago, este último com um estilete cristalino ou formação mucóide que mistura as partículas nutritivas; hepatopâncreas, glândula que segrega enzimas digestivas; e intestino, que termina no ânus.
O sangue contém diferentes pigmentos que transportam o oxigênio do exterior para os tecidos orgânicos. O coração vai desde uma simples invaginação do pericárdio, nos escafópodes, até um órgão bem diferenciado, nos cefalópodes, nos quais é inteiramente arterial e tem um ventrículo mediano e de duas a quatro aurículas. A circulação, que é essencialmente lacunar nos moluscos inferiores, efetua-se por um sistema completo de vasos, nos cefalópodes. Geralmente incolor com amebócitos, o sangue pode ser também azulado, devido ao pigmento hemocianina, ou vermelho, cor que resulta da hemoglobina, presente em aplacóforos, alguns bivalves e poucos gastrópodes. O volume do sangue em bivalves e gastrópodes permite a manutenção da turgescência das diversas partes do tegumento.
O sistema nervoso apresenta uma série de massas ganglionares, conectadas entre si e com os gânglios cerebrais, as quais se incumbem de estimular a atividade de diferentes partes do corpo. Nos polvos, a massa cerebróide adquire grande volume e os capacita à aprendizagem de numerosas situações importantes à sobrevivência. Paralelamente ao desenvolvimento cerebral, distinguem-se nos polvos olhos muito complexos, formados de câmaras, que os dotam de notável visão, fato relacionado ao tipo de vida eminentemente ativa e predadora desses cefalópodes.
A reprodução é sexuada e os sexos freqüentemente estão separados, à exceção de alguns gastrópodes e bivalves, nos quais se registra hermafroditismo (cada indivíduo tem ao mesmo tempo órgãos reprodutores femininos e masculinos). Os moluscos marinhos apresentam um estágio larvar característico, a chamada larva trocófora, que tem aparência cônica e é dotada de numerosos cílios, com os quais produz correntes na água para se deslocar.

ECOLOGIA DOS MOLUSCOS

Um número elevado de moluscos vive em meios marinhos, seja em grandes profundidades, seja em áreas costeiras, e há também os que levam vida pelágica, como os cefalópodes, e se deslocam livremente pelos oceanos. Outras espécies colonizaram meios de água doce, como ocorre com certos bivalves -- entre eles os do gênero Unio -- e gastrópodes, ou então se adaptaram a meios terrestres, como os caracóis e as lesmas. Certos caracóis, como os dos gêneros Planorbis e Limnaea, se desenvolvem em águas estanques, das quais emergem à superfície, de tempos em tempos, para respirar.
As plataformas continentais, zonas de menor profundidade que margeiam os continentes, são um meio  propício à proliferação de numerosas espécies. Algumas vivem semi-enterradas na areia do fundo; outras se fixam às pedras do litoral e se mantêm a descoberto quando baixa a maré; e muitas vivem em recifes de corais e se desenvolvem por entre as colônias de celenterados.
Os hábitos de alimentação dos moluscos são  variados. Muitos são herbívoros e se nutrem de vegetais terrestres, como ocorre com os pulmonados, lesmas e caracóis, que vagueiam à cata de comida por hortas e campos úmidos, ou de organismos aquáticos, como ocorre com as lapas e os quítons, que ingerem algas. As lapas fixam-se às rochas costeiras, graças à ação dos músculos do pé locomotor, e por elas podem se deslocar para se alimentar das algas que eventualmente aí estejam aderidas.
Outras espécies de moluscos têm dietas carnívoras e são vorazes predadores, como é o caso dos cefalópodes e de muitos gastrópodes marinhos. Entre esses se encontram os múrices, que furam a concha dos bivalves mediante o uso de órgãos perfuradores situados na parte anterior do pé; e os do gênero Conus, que secretam substâncias tóxicas, com as quais paralisam as presas, que depois fisgam com estruturas semelhantes a trombas. Entre os moluscos perfuradores se incluem ainda os do gênero Teredo, também chamados ubiraçocas, que esburacam madeira, causando dano a embarcações e a instalações portuárias, e os do gênero Lithophaga, que atacam rochas calcárias ao lançarem sobre elas secreções ácidas.

CLASSIFICAÇÃO

A maioria dos moluscos pertence a uma de três grandes classes: a dos gastrópodes, que compreende os caracóis terrestres e marinhos; a dos bivalves, também chamados de lamelibrânquios ou pelecípodes, com espécies representativas como as ostras e os mexilhões; e a dos cefalópodes, que inclui principalmente polvos e lulas.
Gastrópodes. Os gastrópodes apresentam cabeça bem diferenciada, com tentáculos tácteis e outros nos quais se dispõem os olhos. Têm o pé muito típico, grosso e proeminente, sobre o qual se assenta a massa visceral, encerrada na concha. Devido à formação da concha, os órgãos mais importantes do corpo experimentam um processo de torção ou giro em relação ao eixo longitudinal, com o que o aparelho digestivo se curva e o sistema nervoso sofre um cruzamento em seus cordões neurais. Nos organismos marinhos, a respiração é branquial e nos de terra firme e de água doce, é pulmonar.
Quando o animal se acha em perigo, retrai o corpo e o esconde no interior da concha, o que as formas terrestres também fazem ao entrarem em letargia para enfrentar o inverno. Neste último caso, a abertura da concha é tapada com muco que se solidifica ao secar, impedindo, assim, a perda de umidade. Certas espécies aperfeiçoaram ainda mais o sistema e formam uma pequena placa calcária, em forma de disco, com a qual vedam completamente a abertura.
A concha se dispõe em espiral, se bem que em determinadas espécies terrestres ela tenha desaparecido de todo (lesmas vaginulídeas) ou se reduza a uma casca achatada, fina e oculta sob o manto (lesmas limacídeas). Caramujos e caracóis se distinguem pelas formas elaboradas e beleza de suas conchas. O primeiro nome, no Brasil, designa todos os gastrópodes de água doce ou salgada, quer pulmonados, quer providos de brânquias, enquanto o segundo se restringe aos pulmonados terrestres com concha fina e de pequenas dimensões. Representantes dos dois grupos são extremamente comuns na fauna brasileira. Citam-se entre os caramujos os aruás do gênero Ampullarius, os bulimos do gênero Strophocheilus, o linguarudo (Lintricula auricularia), o preguari (Strombus pugilis) e búzios como Cassis tuberosa. Entre os caracóis, sobressaem os dos gêneros Bradybaena, Leptinaria e Subulina. Gastrópodes marinhos bem conhecidos no Brasil e em várias partes do mundo são as lapas do gênero Patella, os múrices do gênero Murex, a litorina (Littorina littorea), as porcelanas e chaves do gênero Cypraea.
Bivalves. Em sua maior parte, os bivalves -- ou pelecípodes -- são marinhos. Sua concha se constitui de duas valvas que se fecham como tampas graças à contração dos chamados músculos adutores; a articulação das valvas se processa mediante a charneira, freqüentemente denteada, que as mantém unidas.
A respiração se efetua por meio de brânquias laminares, razão pela qual esses animais também são conhecidos como lamelibrânquios. Tais lâminas, ao mesmo tempo, filtram partículas alimentícias em suspensão na água. Algumas espécies, como as amêijoas, dispõem de estruturas tubuliformes -- os sifões branquial e cloacal -- pelas quais absorvem substâncias nutritivas e eliminam os resíduos oriundos da atividade metabólica.
Entre os bivalves acham-se espécies muito utilizadas na alimentação humana, entre elas o mexilhão da Europa (Mytilus edulis) e seus correspondentes brasileiros, os mariscos conhecidos por nomes como sururu ou bacucu, a ostra (Ostrea edulis), a navalha européia (Ensis ensis), a unha-de-velha alagoana (Tagelus gibbus) ou a famosa coquille Saint-Jacques francesa (Pecten jacobeus), conhecida também como concha-de-romeiro. Referência à parte merece a enorme Tridacna gigas do Pacífico, que alcança 1,30m e cujas conchas foram usadas em igrejas antigas como pias batismais.
Cefalópodes. A classe dos cefalópodes congrega espécies habituais em alto-mar, capazes de se deslocarem por propulsão, até mesmo em águas profundas, graças à forte emissão de líquido através de um sifão. Cefalópodes como os polvos e lulas são dotados de uma glândula produtora de tinta escura, que pode ser esguichada para turvar a água e assim prejudicar a visão de seus eventuais predadores.
Algumas espécies, como os náutilos, possuem concha externa espiralada, ao passo que em muitas outras, entre as quais os polvos, lulas e sépias, a concha tornou-se vestigial, reduzida a uma pequena lâmina cartilaginosa ou coriácea no interior do corpo. Traço característico dos cefalópodes desprovidos de concha é a presença de tentáculos terminados em ventosas ao redor da cabeça, em número variável, mas na maioria das vezes entre oito e dez. Animais como os polvos são por isso chamados de octópodes, cabendo às lulas e sépias a designação de decápodes. Os argonautas configuram um grupo à parte, por associarem a existência de tentáculos à de uma concha bem constituída, embora fina e frágil, que serve entre outras coisas para a incubação de seus ovos.
Nas espécies do gênero Nautilus, que ocorrem sobretudo nos oceanos Índico e Pacífico, a concha nacarada e de grande valor ornamental consiste de cerca de 36 câmaras, na última das quais o animal vive. Todas as câmaras se comunicam por um tubo, o sifúnculo, pelo qual há uma intensa circulação de gases, para dentro e para fora dos diversos compartimentos. Em decorrência disso, a concha funciona como uma bóia ou órgão hidrostático, que facilita ao molusco a ascensão e a descida na água. Os náutilos possuem também dezenas de pequeninos tentáculos contráteis, que utilizam para a captura de camarões e outras presas de que se nutrem.
Outras classes. Os moluscos incluem também outras classes, com menor número de espécies. Os monoplacóforos, como os do gênero Neopilina, são muito primitivos, enquanto os escafópodes (gênero Dentalium) possuem concha de forma tubular. Na classe dos anfineuros incluem-se os poliplacóforos (tipificados pelo gênero Chiton) e os solenogastros (aplacóforos), semelhantes a vermes e sem concha, mas incluídos entre os moluscos pelas características de seus estágios larvares.
Gastrópodes; Invertebrados; Lula; Mexilhão;    Náutilo; Ostra; Polvo

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