O conflito Israel e Palestina


Um ano atrás, quando o Knesset [3] discutiu, num acalorado debate, se os colegiais israelenses deviam ou não ter a opção de ler Mahmud Darwish [4], muitos palestinos interpretaram a veemência com que a idéia foi atacada como um sinal da intransigência do sionismo ortodoxo. Deplorando a oposição à idéia de que os jovens israelenses ganhariam com a leitura de um importante autor palestino, muita gente argumentou que não é possível esconder a história e a realidade para sempre e que esse tipo de censura não cabe no currículo escolar. A música de Wagner apresenta um problema semelhante, embora não haja como negar o fato de que as terríveis associações com a sua música e suas idéias são um verdadeiro trauma para aqueles que acham que, num certo sentido, o compositor se prestava perfeitamente às apropriações feitas pelos nazistas. Contudo, em algum momento se torna impossível encobrir a existência de um grande compositor como Wagner. Se Barenboim não tivesse executado sua música em Israel no dia 7 de julho de 2001, alguém o teria feito um pouco depois. É inútil tentar excluir uma realidade complexa, pois ela sempre acaba se manifestando.
Portanto, a questão é: como entender o fenômeno Wagner, já que reconhecer ou não sua existência não leva a nada.No contexto árabe, a campanha contra a “normalização” das relações com Israel — um desafio mais premente e real, visto que Israel impõe punições e comete assassinatos diários contra um povo inteiro, cuja terra está ilegalmente ocupada há 34 anos — tem alguma semelhança com os tabus israelenses referentes à poesia palestina e a Wagner. Nosso problema é que os governos árabes mantêm relações econômicas e políticas com Israel, enquanto grupos de indivíduos tentam impor a proibição de todos os contatos com os israelenses. A condenação da “normalização” carece de coerência, pois a campanha não tem afetado sua rasion d’être — a opressão do povo palestino por Israel. Quantas casas palestinas as medidas antinormalização poupam da demolição? Quantas universidades palestinas conseguem dar instrução a seus alunos graças à antinormalização? Nenhuma, infelizmente. E por isso eu acho que é melhor um renomado intelectual egípcio vir para a Palestina numa demonstração de solidariedade para com os seus colegas palestinos — talvez para lecionar, dar uma palestra ou ajudar numa clínica — do que ficar em casa pedindo que os outros o façam. A antinormalização total não é uma arma eficaz para os impotentes: seu valor simbólico é baixo e seu efeito é passivo e negativo. As armas bem-sucedidas dos fracos — na Índia, na América do Sul, no Vietnam, na Malásia e em outros lugares — são ativas e até agressivas. O objetivo é incomodar o opressor poderoso e torná-lo vulnerável tanto moral como politicamente. Não se consegue esse efeito nem com os atentados suicidas, nem com a antinormalização, que no caso da luta pela libertação sul-africana foi usada como um boicote contra acadêmicos visitantes em associação com várias outras medidas.  

[1] Daniel Barenboim, nascido na Argentina e naturalizado israelense, é um dos maiores nomes da música erudita atual. Ele se lançou na carreira de concertista aos sete anos de idade. Na década de 60, assumiu também a função de maestro. Regeu a Filarmônica de Berlim, a Sinfônica de Chicago e a Ópera Estatal de Berlim, entre outras. Ao lado do intelectual palestino Edward Said, Barenboim criou a West-Eastern Divan Orchestra que, com sede em Sevilha, reúne jovens músicos judeus e árabes.
[2] Edward W. Said foi o intelectual palestino de maior renome e influência no mundo. Nasceu em 1935, durante o mandato britânico na Palestina, e se mudou para o Cairo, no Egito, em 1947, quando uma resolução das Nações Unidas dividiu a cidade em áreas judaicas e palestinas. Em 1951, emigrou para os Estados Unidos e, desde a década de 1960, lecionava literatura na Universidade de Columbia, em Nova York.
[3] A Knesset — que em hebraico quer dizer assembléia — é o parlamento de Israel. Sua sede está em Jerusalém, onde antigamente havia uma vila árabe.
[4] Mahmud Darwish nasceu em Al-Birwah, perto de Akka (Galileia), no ano de 1941. Hoje é presidente da Sociedade de Escritores e Poetas Palestinos. Darwish escreveu uma enorme quantidade de livros e é considerado o poeta mais representativo não só da Palestina, mas de todo o mundo árabe. Há vários anos é indicado para Prêmio Nobel.
 
                              
O jogo da negação 
Artigo de Demétrio Magnoli [1] para o jornal O Estado de São Paulo,
em 09 de ago. de 2007
 

[...] Tony Blair destruiu-se a si mesmo, como líder político, quando decidiu cerrar fileiras com Bush na aventura iraquiana. Mas não é verdade que o britânico compartilhava a visão dos neoconservadores: sua ambição, irrealizada, era influenciar a estratégia dos EUA, inserindo a Palestina no núcleo da política ocidental para o Oriente Médio.
No texto do poeta Mahmoud Darwish, a Palestina funde-se à Andaluzia, de onde os árabes foram expulsos há cinco séculos, na epopéia cristã da Reconquista. “Andaluzia tornou-se um lugar perdido, e então a Palestina tornou-se Andaluzia: nós perdemos a Palestina, assim como havíamos perdido Andaluzia.”A profundidade histórica do paralelo, presente sob formas diversas nas narrativas árabes e palestinas, revela o lugar do nacionalismo palestino na cultura árabe - um elemento que ocupa o centro do cálculo político da Al-Qaeda. Blair, ao contrário de Bush, sabia que a estabilidade no Oriente Médio é impossível sem um Estado Palestino viável. Agora, no momento da derrota, Washington volta a olhar para a Palestina em busca de uma alternativa à catástrofe.
Em Jericó, Olmert declarou a Abbas que impulsionará “tão rápido quanto possível” a criação do Estado Palestino e os dois líderes agendaram negociações preparatórias da cúpula de paz marcada para novembro, em Washington. O presidente israelense, Shimon Peres, apresentou a Olmert um plano de devolução de 100% da área dos territórios ocupados e intercâmbios de terras entre Israel e Palestina para acomodar vários blocos de colônias na Cisjordânia. Pela primeira vez, o atual governo israelense parece admitir uma fórmula territorialmente viável para a paz.
A flexibilidade, contudo, é apenas aparente. Desde a ruptura entre os nacionalistas do Fatah e os fundamentalistas islâmicos do Hamas, em junho, Israel engajou-se na proteção do governo de Abbas, na Cisjordânia, e no isolamento do Hamas, que mantém sob seu controle a Faixa de Gaza. A estratégia tem a finalidade de fazer emergir uma Palestina liberta da presença política do Hamas. A irrealidade disso condena, de antemão, o empreendimento em curso.
Israel nasceu em estado de negação — e o reproduz, sem cessar, até hoje. No início do século 20, os sionistas prometeram “uma terra sem povo a um povo sem terra”. Quando, nas revoltas dos anos 30 e, novamente, na guerra de 1948-49, os árabes da Palestina se revelaram uma realidade incontornável, Israel decidiu que havia um povo, mas não uma nação, na Terra Santa. Os livros didáticos israelenses elaboraram o mito dos “beduínos do deserto”, figuras efêmeras que se deslocam sem imprimir sua existência à paisagem, enquanto os líderes do Estado rotularam como “jordanianos” aqueles árabes que insistiam em existir.
A presença da nação palestina se tornou inegável depois da Guerra dos Seis Dias*, de 1967. Sob a ocupação israelense de Jerusalém Leste, da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, os palestinos deflagraram as intifadas, oferecendo a prova política irrefutável de sua existência. Nos acordos de Oslo, de 1993, finalmente o governo de Israel reconheceu os direitos nacionais palestinos e avançou até o estabelecimento de um governo autônomo palestino nos territórios ocupados.
Mas a negação nunca terminou.Ao longo dos muitos anos do “processo de Oslo”, incansavelmente, o governo e a burocracia de Israel continuaram a autorizar a implantação de novas colônias e a expansão das colônias existentes nos territórios palestinos. Mais tarde, o governo de Yasser Arafat foi declarado ilegítimo sob o argumento de que estimulava e protegia o terrorismo. Depois, o governo do Hamas, oriundo da vitória eleitoral sobre o Fatah, foi declarado ilegítimo, sob o argumento de que não admite reconhecer o Estado de Israel sem a conclusão de um tratado de paz. Hoje, Israel negocia com um governo que considera legítimo, mas que só existe por meio da negação da vontade dos palestinos, expressa nas urnas.
O Hamas certamente não é um parceiro ideal para a paz. Seus “mártires” explodiram inocentes em cafés de Jerusalém e pontos de ônibus de Tel-Aviv e seu programa acalenta até hoje a utopia sanguinária da destruição do Estado de Israel. Mas esse partido fundamentalista é um componente da nação palestina — tanto quanto os partidos religiosos extremistas são componentes da nação israelense. Enquanto essa realidade não for reconhecida, o nome do jogo não será paz, mas negação.
[1] Artigo de Demétrio Magnoli é sociólogo e doutor em Geografia Humana pela USP 

A participação dos EUA no conflito

Os Estados Unidos são odiados no Oriente Médio, por causa de seu apoio acrítico que soma mais de US$3 bilhões a US$4 bilhões por ano, sustentando incondicionalmente a ocupação israelense nos territórios palestinos, incluindo o fornecimento de helicópteros, caças F16 e mísseis usados para reforçar a ocupação.(Phyllis Bennis, do Institute for Policy Studies, Washington) .

A ocupação judaica da Palestina

Começou a ganhar força no final do século XIX, quando o mundo afro-asiático estava sendo partilhado pelas potências imperialistas. Nesse período, parte do mundo árabe-islâmico ainda estava sob domínio do Império turco-otomano, que se estendeu até 1918, quando a Turquia foi derrotada na Primeira Guerra Mundial e a Palestina tornou-se um território sob mandato britânico.
Cerca de 20 anos antes, iniciava-se na Europa o movimento sionista, articulado por lideranças da comunidade judaica internacional, com objetivo de construir um lar nacional judeu na Palestina.Tal movimento iniciou-se quando o escritor austríaco de origem judaica Theodor Herzl publicou o livro "O Estado Judeu", fato esse que provocou o primeiro congresso sionista mundial em 1897.
No contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, a recém criada ONU decidiu pela partilha da Palestina, hegemonicamente árabe, resultando na proclamação do Estado de Israel em 1948.[...] A relação mais odiosa do mundo árabe-islâmico com os Estados Unidos porém, é mais recente, originando-se bem menos na criação do Estado de Israel, e bem mais na Guerra dos Seis Dias* em 1967, quando Israel ocupou os territórios palestinos da Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental (a região mais delicada sob o aspecto histórico-religioso tanto para muçulmanos, como para judeus e cristãos), além das colinas de Golã da Síria e da península do Sinai do Egito, já devolvida em 1979. O povo palestino, discriminado dentro de Israel e arruinado nos territórios ocupados, teve sua situação agravada nas décadas de 1970 e 1980, quando o expansionismo israelense apoiado pelos Estados Unidos, estendeu-se para o Líbano, visando expulsar a OLP do território libanês.
Foi nesse quadro que se radicalizou a luta palestina contra Israel, com o surgimento e crescimento de grupos político-religiosos hostis ao ocidente, destacando-se o Hezbollah ("Partido de Deus"), organização xiita libanesa apoiada pelo governo islâmico fundamentalista do Irã, oHamas (Movimento de Resistência Islâmica) criado por palestinos em 1987 quando se iniciou a primeira intifada (levante popular palestino contra a ocupação israelense), a Jihad islâmico formada por jovens palestinos no Egito desde 1980, além do Al qaeda ("A Base"), organização muçulmana radical com sede principal no Afeganistão, liderada pelo milionário saudita Osama bin Laden, o principal acusado do ataque terrorista aos Estados Unidos e que, no passado mais recente também foi parceiro dos Estados Unidos no combate às tropas da União Soviética nos anos 1980. ( www.historianet.com.br)

* A Guerra dos Seis Dias  

Em 5 Junho de 1967 Israel ataca e destrói toda a força aérea egípcia, avança sobre o Sinai e a Faixa de Gaza. Após o início do ataque ao Egito, a Jordânia e a Síria interferirem na disputa, mas Israel, tendo uma forte militarização com o apoio americano, derrotou seus adversários com extrema facilidade.Ao final da guerra, Israel controlava a Cisjordânia, toda a Jerusalém, as Colinas de Golã, a Faixa de Gaza e o Sinai. a ocupação das Colinas de Golã foram estratégicas para Israel, pois com isso os ataque sírios, que instalavam suas bases de mísseis lá, ficaram comprometidos. O pretexto de diminuir os ataques terroristas palestinos e o desbloqueio do golfo de Ácaba, não foi aceito como motivo para os ataques pela ONU, que indicou a devolução dos territórios anexados, resolução não aceita por Israel. (www.historianet.com.br)

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