Resumo - A Sibila - Augustina Bessa-Luis

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A Sibila - Augustina Bessa-Luis

Publicado em 1953 e desde então recebedor de inúmeros prêmios em Portugal, entre eles o Prémio Delfim Guimarães e o Prémio Eça de Queirós, A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, é um caudaloso (uma das características mais nítidas do romance é justamente o seu aspecto caudaloso, fruto de uma narração memorialista que não se mostra objetiva, direta. 

Qualquer fato inspira no narrador comentários que se vão encadeando de forma labiríntica e algumas vezes até dispersiva, o que afasta, sem dúvida, o leitor comum da apreciação da obra) romance em que se destaca e se valoriza o universo feminino.

Sua abertura, contrapondo o ponto de vista de Germa e de Bernardo, além de ser o gatilho que detonará toda a narrativa sobre a vida de Quina, a protagonista, serve para apresentar dois modos de vida, que podemos entender como o burguês-urbano (Bernardo) e o rural (Germa). A tese da obra parece partir daí.

Para poder falar de Quina, a personagem principal da obra, é criado todo um contexto, recuando-se às origens de sua família, quando seu pai, Francisco Teixeira, e sua mãe, Maria, conheceram-se. 

É um procedimento que faz lembrar o tom do Realismo-Naturalismo ao dar uma lógica, uma verossimilhança histórico-hereditária ao comportamento humano (no entanto, A Sibila tem inúmeras diferenças com relação ao Realismo-Naturalismo, apesar de possuir narrador onisciente. 

A começar pelo fato de não se tratar de um romance urbano. Além disso, o seu tão famoso detalhismo é dispersivo e não aquele que, durante a estética do século XIX, servia como embasamento cientificista para a análise da realidade. 

Para finalizar, pode-se também lembrar que o aspecto psicológico, tão valorizado no Realismo (mas não no Naturalismo) é sufocado por um narrador que dá muito mais atenção a algo que está entre suas reflexões, o ambiente descrito e a criação de uma simbologia ligada à tese ou filosofia do romance, ainda a ser discutida neste comentário).

A união entre os dois foge ao esperado. Maria, menina ainda, casa-se em segredo e continua morando na casa dos pais. Francisco havia contraído matrimônio como um mecanismo de defesa, para, se necessário, fugir de qualquer pressão incômoda das muitas mulheres que cortejava. 

Quase um ano depois sua esposa assumia a casa dele, com a intenção de escapar da falsa imagem que estava ganhando de solteirona. 

Mesmo tornando clara a união, Teixeira não muda seu comportamento, tornando o mesmo homem de farra, de vida boa, de várias mulheres, que encarava o lar apenas como um pouso, um descanso.

No entanto, sua esposa nunca abandonaria a eficiência de sua nova função, chegando a passar fome, pois sempre esperava Francisco para jantar e este voltava muito tarde, já alimentado. Sem companhia, jogava sua comida fora. 

Com o tempo, ela foi-se adaptando à condição, tendo filhos e cuidando de casa. De sua prole, destacam-se Quina, Estina, João e Abel.

A recorrência de oposições acaba por declarar a filosofia da obra. Bernardo e Germa têm relação semelhante a Francisco e Maria, que por sua vez se assemelha a oposição entre as meninas Quina e Estina com relação aos meninos João e Abel. 

Os homens são gastadores e muito preocupados com relações e prazeres de existência. Como conseqüência, não sabem cuidar da própria sobrevivência. 

Tal tarefa é realizada eficientemente pelas mulheres. Prova disso é que as terras de Vessada estão em decadência enquanto Francisco é proprietário. No momento em que Maria assume a liderança, principalmente após a morte do marido, a propriedade aos poucos vai saldando suas dívidas até zerar o seu déficit. 

Atinge-se um equilíbrio, mas tão frágil que a simples presença de um homem, com seus gastos supérfluos de bon vivant comprometiam todo o esforço conseguido até braçalmente por Maria e Quina.

O curioso é que esse caráter indisciplinado dos homens não inspira nenhum clima de guerra no quadro doméstico. Maria chega a repreender firmemente qualquer filho que se levantasse contra Francisco. 

Aliás, este era o único ponto de conforto para Quina, que tinha uma infância massacrada por pesadas tarefas domésticas que sua mãe atribuía, enquanto Estina, a irmã, era educada com mimos. Detalhe: essa diferenciação não gerava ressentimentos de Quina em relação à mãe ou à irmã. 

Somente o pai é que esporadicamente se levantava contra, mas era opinião não ouvida.

A situação de Quina só melhora, no sentido de ganhar mais respeito da mãe, por volta dos 15 anos, quando a menina cai terrivelmente doente, a ponto de já se esperar sua morte. 

Ao conseguir se safar do malefício, momento em que desenvolve um caráter aéreo, desligado e cansado, recebe, do povo supersticioso da região, uma atribuição mística. Começa, então, o seu caminho para se tornar a sibila (de acordo com o Dicionário Houaiss, sibila é "entre os antigos, mulher a quem se atribuíam o dom da profecia e o conhecimento do futuro").

A primeira vez em que esse dom místico é claramente mencionado foi num episódio relacionado a uma mulher rica e nobre, Elisa Ainda, a Condessa de Monteros. 

Um dos irmãos de Quina era apaixonado por ela, mas acabara de ser rejeitado pela imponente senhora. A Sibila, então, para consolar o parente, revela que a nobre não iria conseguir mais casamento. Era um conhecimento que a protagonista possuía que não implicava a razão, mas algo muito mais íntimo e, portanto, irracional e inexplicável. 

Quando mais tarde o ex-pretendente se despede, revela à nobre o que havia ouvido da irmã. Por coincidência, a mulher acabara de ser negligenciada numa proposta de relacionamento que corria em segredo. Impressionada, Elisa conclama os conselhos de tão poderosa mística, o que só aumenta a reputação de Quina.

No entanto, seus conselhos e influência abarcam questões práticas, principalmente pela fama que Quina adquire de excelente proprietária, que, após zerar as dívidas do pai, começa a acumular capital e passa a acumular bens, chegando, após a morte da mãe, a comprar a parte de Vessada que cabia aos irmãos. 

Mas uma análise mais aprofundada conseguiria relacionar os aspectos místicos e práticos.

Quina representa a força feminina, que simbolicamente está associada à terra e ao misticismo. É o impulso da produção, da fertilidade. Por isso, Vessada, em mãos femininas, torna-se lucrativa. 

Civilização, no seu sentido burguês e, portanto, urbano, com suas regras de etiqueta e sofisticação, afastariam o ser humano de sua essência, de sua ligação com a vida e a terra. Em todo momento essa oposição, já anunciada no primeiro diálogo da obra, entre Germa e Bernardo, aparece.

Enfim, com o tempo, a protagonista vira riquíssima proprietária, o que faz chover pretendentes, recusados todos. Acaba, no entanto, dedicando-se a uma figura masculina: Emílio, chamado, entretanto, de Custódio, como toda criança não batizada, de acordo com costumes daquela região. 

Trata-se do filho de um empregado de Elisa Aida; aliás, este era um luxo, um bibelô, pois função prática não tinha. Com a morte da nobre, ele aparece em Vessada e Quina resolve contratá-lo, também para demonstrar luxo e status

No entanto, o jovem um dia surge com o coração estraçalhado: sua paixão, uma prostituta, havia morrido e deixado um filho – Custódio. Com o sumiço do pai, pouco depois, a protagonista acaba assumindo a guarda do menino.

Em pouco tempo o garoto acaba mostrando sua personalidade. Dotado de inteligência tarda, limítrofe, chega a fazer parte de um grupo de bandidos. 

Com a prisão do cabeça, volta a ficar sem rumo na vida. No entanto, com a velhice avançada de Quina, imagina-se no direito – mas não na garantia – de ser o herdeiro legítimo dela. 

Essa idéia não era exclusiva dele, mas circulava entre os familiares da protagonista, o que gera uma pesada ciumeira, pois acham absurdo que ela deixe tudo para um não-parente.

Começa, então, um período de disputas surdas. Custódio, preocupado com seu futuro, desajeitadamente passa a bajular Quina. Ela percebe – o que ele deixa claro – que sua preocupação é com as posses. O rapaz possui, no entanto, uma relação forte com Vessada, o que nenhuma outra personagem masculina tinha. 

Era um dom presente em Quina, Maria e em Germa, principalmente quando esta se encontrava na infância (durante a vida agitada da adolescência Germa chegou a rejeitar Vessada. 

Mais velha, volta a idolatrar a propriedade, mas não da forma como fizera na infância. Passa a ver lá um refúgio, um lugar de sossego. Qualidades comumente associadas à simbologia do útero. Ou seja, mais feminilidade).

Depois de um longo período de agonia e definhamento, Quina morre. Deixa a quase totalidade de suas posses para sua sobrinha, Germa. Para Custódio, ficam alguns rendimentos e duas propriedades adquiridas após a morte de Maria. 

Não era o que ele queria. Tanto que o dinheiro dos rendimentos estraga-se fisicamente no primeiro ano, guardado que é na umidade de um cômodo. Após esse período, desperdiça-o. 

Até que se suicida de forma ao mesmo tempo trágica e cômica: coloca o pescoço sob uma guilhotina, que faz cair duas vezes – em nenhuma delas a cabeça foi decepada, o que o fez esperar por uma morte lenta.



Fonte: Vestibular1

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