Resumo - Poema Sujo - Ferreira Gullar

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Poema Sujo - Ferreira Gullar

                Trata-se, no mínimo, de um descuido. E, no limite, de imaturidade e falta de critérios rigorosos. Cerca de 8 meses após o lançamento do Poema Sujo, do poeta, ensaísta e jornalista maranhense Ferreira Gullar, a crítica dita "especializada" poucas palavras proferiu em relação àquele que muitos consideram, com acerto, o melhor poema brasileiro escrito e publicado nos últimos anos.

                É bem verdade que Gullar e o poema foram temas da imprensa. Entrevistas (algumas por sinal excelentes) não faltaram, o que é inegavelmente positivo. Mas a crítica mesma, esta preferiu o silêncio, enquanto fazia estardalhaço em torno de coisas indiscutivelmente menores. 

                E como uma obra artística não pode ser devidamente apreciada apenas pelo que seu autor dela diz – mas precisa ser analisada em si mesma – há, em relação ao Poema Sujo, uma lacuna a ser preenchida. 

                É válido, portanto,  sugerir que as armas da crítica para isso se voltem, no intuito de mostrar que, entre nós, a crítica já deixou de engatinhar. E também para reparar uma injustiça. Principalmente agora,  quando o poeta retorna de um exílio voluntário mas sofrido. 

                Tudo isso porque Poema Sujo é, sem dúvida nenhuma, a obra mais importante surgida no panorama poético brasileiro desde há pelo menos uma década. Opinião que é corroborada por intelectuais do porte de Nelson Werneck Sodré, Antonio Callado, Otto Maria Carpeaux, entre outros. 

                E é fácil concordar com isso ao se ler o poema, que é tão forte, comovente e evocativo que chega mesmo a incomodar, a excitar, a aguçar a sensibilidade. 

                Trata-se de obra que exprime autenticamente a verdade típica da poesia, ou seja, "a verdade que comove", para usar um conceito do próprio poeta (entrevista a Veja, 2/3/77). Frente ao Poema é impossível permanecer indiferente, insensível. E fica difícil deixar de pensar no homem brasileiro, naquele do Maranhão e no de outras regiões, de pensar no Gullar e na humanidade mesma.

Afinal – e este final é quase tudo – a fonte de arte é o particular. E o problema, no dizer do poeta, "é exatamente este: que eu encontre a expressão universal da coisa particular". Algo que Gullar alcança com brilhantismo.

                Poema Sujo fala de São Luís do Maranhão, natal do poeta, nascido José Ribamar  há 47 anos. Retrata, com a particularidade do reflexo estético, sua experiência de vida naquela cidade até os 21 anos de idade. Mas, na verdade, o poema é muito mais do que isso: é um retrato de corpo (e alma) inteiro de Gullar, que abarca sua vida de hoje, suas idéias políticas e filosóficas, sua saudade de exilado suas perplexidades. Ao falar de São Luis, Gullar fala do Brasil. E falando do Brasil, fala do homem.

                Gullar parte do homem mesmo, deste "ser que responde" a situações historicamente dadas, parte de suas experiências vitais, das contradições sociais que o determinam e são por ele determinadas. 

                É isto o que se trata de esteticamente (poeticamente) refletir. O homem maranhense, o próprio Gullar: este o ponto de partida, a fonte do Poema Sujo: este, também o elemento que faz a poesia chegar ao universal, o "alimento" do artista. 

                Gullar com ele opera como só os grandes poetas sabem e podem fazer, transformando o real em algo mais real, o mais simples no mais belo e significativo. Reconstruindo o mundo.

                O impulso para escrever o poema, que de fato é a síntese de toda a sua vida, nasceu, nas palavras do próprio poeta, "de todos esses anos e de tanta paulada que levei. Vontade de escrever um poema brasileiro e que não fosse uma coisa pessoal apenas. Uma coisa que fosse minha gente, que fosse mais do que eu, que fosse minha vida toda, na medida em que minha vida toda é a vida de todo mundo".

                É tudo muito bom, bem-dito, lírico, evocativo. Versos que emocionam, que contam e cantam a trajetória vivida do poeta. Versos como os que lembram o primeiro amor: "Seu nome seu nome era.../ Perdeu-se na carne fria/ perdeu-se na confusão na confusão de tanta noite e tanto dia/ perdeu-se na profusão das coisas acontecidas". 

                Como os que revelam o Gullar nostálgico e distante ("Quanta coisa se perde/ nesta vida"), o Gullar dos momentos e recordações marcantes: "Bicicleta no domingo/ Papagaios de papel/ Retreta na praça/ Luto/ Homem morto no mercado/ sangue humano nos legumes".

                O Gullar que descobre, interroga e entende seu corpo ("meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo"): "Corpo meu corpo corpo/ que tem um nariz assim uma boca/ dois olhos/ e um certo Jeito de sorrir/ de falar/ que minha mãe identifica como sendo de seu filho/ que meu filho identifica como sendo de seu pai". 

                O Gullar dos anos de aprendizagem: "Que me ensinavam essas aulas/ de solidão/ entre coisas da natureza / e do homem?". Há o cotidiano questionado e sentido, os dias, noites e tardes ("Muitos/ muitos são os dias num dia só"). 

                E o poeta lúcido, atento: "Já por aí se vê/ que a noite não é a mesma/ em todos os pontos da cidade" (nas palafitas da Baixinha, à margem da estrada-de-ferro, por exemplo, a noite "não passa, não/ transcorre/ apodrece"; por isso, "para bem definir essa noite, da Baixinha/ não se deve separá-la/ da gente que vive ali").

                Há a lembrança do pai, "parado e ao mesmo tempo Inserido/ num amplo sistema", a ler seu conto policial X-9. Luís sempre presente, "suja e doída" ("Ali, minha cidade verde/ minha úmida cidade"). A cidade que expulsa e fascina, limite e aprisiona. "Vendo o que é medo/ para a capital do país". 

                Cidade, dias e homens que se movem em muitas diferentes velocidades, como "sistemas" que giram em torno de "centros" (colégios, igrejas e prostíbulos, a mesa de jantar, a cozinha, o pote d'água, a cama), "Porque/ diferentemente do sistema solar/ a esses sistemas/ não os sustém o sol e sim/ os corpos/ que em torno dele giram/ não os sustém a mesa/ mas a fome/ não os sustém a cama/ e sim o sono/ não os sustém o barco/ e sim o trabalho não pago".

                E o Gullar revelando a saudade e a distância, seus dilemas e perplexidades. "O homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade". E o exílio doido, que não apagou a lembrança e as marcas da existência. 

                Que machucou mas não alienou. "A cidade está no homem/ quase como a árvore voa/ no pássaro que a deixa". E a verdadeira poesia de um grande poeta. Que estava longe e tão perto. Que fez da distância engolida a seco a seiva que alimentou suas palavras. Ele mesmo disse: "se não estivesse tanto tempo fora, jamais teria escrito este poema".

                Participante dos momentos iniciais do concretismo, com quem rompeu em 1957, quando o grupo lançou manifesto prometendo que a poesia seria feita segundo estruturas matemáticas, Gullar começou, e depois enfrentou a onda do neoconcretismo nos primeiros anos de '60 e também saiu vitorioso. 

                Permaneceu desde então extremamente crítico frente aos experimentalismos vanguardistas, às manifestações formalistas de avant-garde

                Sinal claro do enriquecimento de sua visão do mundo e de sua poesia mesma. Seu livro Vanguarda e Subdesenvolvimento, de 1969, contém um dos melhores ensaios escritos sobre o assunto no Brasil. Hoje Gullar constata com satisfação, "o abandono de certo preconceito formalista que dominou e castrou a poesia brasileira durante mais de vinte anos, a partir do concretismo". 

                E vê a poesia voltar a falar, e a falar da vida, que é mesmo o que interessa, na medida em que a vida é a fonte de qualquer arte que se preze.

                Poema Sujo é a expressão máxima deste ressurgimento poético que o próprio Gullar detectou. Um significativo salto qualitativo na trajetória do poeta. Difícil imaginar que ele possa realizar, na poesia, algo ainda melhor. 

                O que não nos deve impedir de torcer para que isto aconteça.

                Como obra de grande poeta, Poema Sujo é uma comovente reconstituição não só da infância e da adolescência de Ferreira Gullar, mas de toda sua experiência de vida e poesia; é, por extensão, das experiências do povo brasileiro e da humanidade. Um poema sujo: limpo: claro que é um pouco (muito, quase tudo) de nós e do nosso tempo. 

Poema Sujo - um fragmento: "Velocidades" 

Mas na cidade havia muita luz,
a vida fazia rodar o século nas nuvens
sobre nossa varanda
por cima de mim e das galinhas no quintal
por cima do depósito onde mofavam
paneiros de farinha atrás da quitanda,
e era pouco
viver, mesmo
no salão de bilhar, mesmo
no botequim do Castro, na pensão
da Maroca nas noites de sábado, era pouco
banhar-se e descer a pé
para a cidade de tarde
(sob o rumor das árvores)
ali no norte do Brasil
vestido de brim.
E por ser pouco
era muito,
que pouco muito era o verde
fogo da grama, o musgo do muro, o galo........



Fonte: Vestibular1

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