Resumo - O Livro de Pré-Coisas - Manuel de Barros

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O Livro de Pré-Coisas - Manuel de Barros

Publicado em 1985, Livro de Pré-Coisas, de Manoel de Barros, propõe-se relatar uma viagem do narrador, orientada por Bernardão, ao Pantanal.

Tal roteiro divide-se em quatro partes. A primeira, curtíssima ("Ponto de Partida"), relata a intenção da obra e conta a viagem de Corumbá até o Pantanal. É uma mera apresentação. 

A segunda ("Cenários") é quase uma galeria de quadros que exibem o ambiente em que se passará a "excursão". A terceira ("O Personagem") dá destaque à figura de Bernardão e de outras personagens. 

Há aqui, aliás, um livro inserido (intratexto?) com um elenco de reflexões filosóficas. A última parte ("Pequena História Natural") dedica-se a descrever os seres que habitam o Pantanal. 

No entanto, o livro acaba-se tornando bem mais do que um roteiro de viagem, graças ao inusitado e chamativo emprego da sua linguagem.

Manoel de Barros, escritor surgido uma década depois de iniciado o Modernismo Brasileiro, realiza um exercício de poeticidade que lembra e em muitos aspectos supera os ditames dos nossos heróicos e loucos artistas de 22, a começar pela metaforização intensa, semelhante a uma brincadeira com a língua. 

Note a beleza de exemplos como "Os ventos se escoravam nas andorinhas" ou "Cavalo corredor é estufador de blusa". Essas, como tantas outras imagens que povoam a obra, revelam um costume do autor em buscar uma nova forma de enxergar o corriqueiro. Modernidade.

Há quem possa levantar a crítica de que essa metaforização intensa acaba criando uma forma tão indireta de se enxergar a realidade que torna o texto barroquista ou mesmo gongórico. Felizmente esse erro não ocorre. 

O que se sucede é um processo totalmente oposto. Manoel de Barros, na realidade, mantém-se coerente no seu poetar, o mais incrível é que Livro de Pré-Coisas mostra-se tão moderno que rompe a fronteira entre prosa e verso. 

À primeira vista, é prosa, mas a maneira como elabora a linguagem e até mesmo como quebra as frases e lhes dá ritmicidade aproxima por demais a obra da poesia. Pode-se comodamente classificar o livro como prosa poética, portanto, com o ambiente que descreve, o que o faz buscar uma linguagem simples, distante dos vícios intelectualóides do mundo civilizado.

De fato, sua linguagem é tão ao rés do chão que se aproxima do infantil. Talvez essa contigüidade seja necessária, pois a criança é a única que tem facilidade para o olhar da descoberta, ou pelo menos para o olhar tudo de forma nova, diferente, o "ver com olhos livres", como pregava Oswald de Andrade. 

Essa é a força presente em imagens como "Aquele morro bem que entorta a bunda da paisagem", "Na outra margem do rio uma casa acendeu". O próprio Manuel de Barros defendia a idéia de que a linguagem, para ser nova, tem de subverter a norma, como facilmente se faz na infância. E tudo com simplicidade.

Todos esses elementos estão fortemente ligados ao código literário de Manuel de Barros. Realiza-se uma fuga do universo civilizado, cheio de clichês ou de figuras vazias, em busca de um universo pré-lógico. É o que se nota, por

exemplo, no seguinte trecho: "Quando meus olhos estão sujos de civilização, cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves".

Caça-se aqui, constantemente, um estágio primitivo de contato ou de contemplação do universo, um estágio de pré-coisas esse termo faz referência à idéia de a paisagem e seus elementos já estarem presentes muito antes de nossa percepção, de nossa intelecção, de nosso raciocínio, de nossa interpretação. 

É uma expressão que levanta bandeira da defesa da dispensa da intelectualidade em busca apenas da fruição da realidade]. E o poeta, com seu toque de Midas, transforma a natureza do Pantanal em beleza poética. 

E nesse ponto é que está a grande força de Livro de Pré-Coisas.

Em outras palavras, Manuel de Barros acaba, ao descrever em sua maneira própria e notadamente criativa o Pantanal, criando não só uma nova linguagem, mas também um novo universo. 

Reinventa a realidade por meio da palavra. Cria um universo poético e mágico.

Dessa forma, há uma enorme beleza quando descreve os aspectos mais corriqueiros do Pantanal, como a arraia, que em época de seca aquieta-se sobre a lama, acabando por abrigar sob si uma infinidade de espécies que se conjuram em embriões de atos, aguardando a chegada da estação das águas. 

São pré-criaturas. Ou então há elemento estético na descrição do guia Bernardão, de chapéu cheio de fezes de pássaros, cabelo engrouvinhado, um hippie sertanejo, no imaginar do narrador. 

Uma pré-criatura, à margem de todo sistema que nos empobrece no consumismo alienante. Ou, como relata o narrador: "Bernardo está pronto a poema. Passa um rio gorjeado por perto. Com as mãos aplaina as águas./ Deus abrange ele."

Nota-se, pois, que seu código lingüístico, além de criar um outro Pantanal, um outro universo (ou pelo menos enxergar um mundo que, mesmo já estando lá, não temos capacidade de enxergar), expõe sua técnica de construção. 

O que Manuel de Barros valoriza na realidade é, coincidentemente ou não, o que ele realiza em sua linguagem. 

Então Livro de Pré-Coisas acaba por se tornar uma metapoesia, ou seja, poesia voltada sobre si mesma. Tal processo, extremamente moderno, é a sua espinha dorsal.

O interessante é que esse seu fulcro, ao mesmo tempo que tem potencial para dessacralizar a obra, na medida em que põe a nu toda a sua metodologia de composição – assim, qualquer um poderia ser, teoricamente, capaz de repetir tal esforço –, torna a obra sagrada, digna de louvor, pois exige, não só em sua confecção, mas também em sua intelecção, um processo árduo de desaprendizagem para que se consiga enxergar o simples. 

Só por causa desse único aspecto, a obra merece figurar entre o que de melhor surgiu neste século.



Fonte: Vestibular1

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