Resumo - O Conto da Figueira - Noel Nascimento

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O Conto da Figueira - Noel Nascimento

O conto da Figueira começa pela cadeia em Curitiba e termina com guerra na Praça, na hora de um festivo funeral em Florianópolis. 

O féretro deixou o Palácio Rosa sob vaias e chuva de pedras, a comitiva surrada em meio à alegria do povo.

A finada implantara o terror e há vinte anos fazia milhares de vítimas com assassínios e atentados como o do Riocentro.

A cadeia dividia-se entre as celas de delegacia e as celas dos quartéis militares. A vingança de Zambom liga-a diretamente à Figueira que cobre a Praça tornando-a um figueiredo, ou melhor dizendo: um figueiral.

Arriada ao peso dos anos, mal ergue os braços, há muito sustentados por estacas. Barriga-verde, cheia de vida, vegetal de mais cuca e memória que o museu de pedras no qual transformaram o Palácio Rosa, à sua frente. 
Palácio Cruz e Souza, cujo nome reverencia como o do maior poeta do mundo.

Árvore do povo, sensitiva. Com alma e concentrando poderes, faz prodígios, gesticula, fala. Conta este conto desde o princípio, gravado no tronco, nos galhos, nas folhas. 

Um conto que não é de realismo fantástico, mas de um fantástico realismo. Se as autoridades soubessem, teriam mandado arrancá-la, porém está lá espalmada na Ilha. 

Abriga e conforta à sua sombra, dá flores (invisíveis), palco a artistas e músicos ambulantes, ninhos aos pássaros. No mês de dezembro, não há no mundo árvore de Natal tão bela e frondosa, iluminando a Ilha, cobrindo as esculturas de areia do presépio.

 - O orgulho catarina é a Praça da Figueira - diz o falar cantado.

Foi no dia trinta de novembro que o chão amanheceu forrado de coquinhos, munição vegetal para a criançada. Florianópolis jamais perdeu a rebeldia maragata, nem a beleza de jardim suspenso no mar. 

A ponte pênsil de metal precioso ornamenta-a, ligando-a ao continente. Jardim com fontes de luz e cor, de sol e luar, penedos em canteiros de areia: praias ao redor. Se os prédios são conchas do homem, ruelas de escamas desembocam na Praça da Figueira.

Ilha do Tesouro, tesouro cujo mapa é o coração, quem o tem, encontra.

Ilha do Amor - até brincavam ao dizerem que as moças ao transporem a ponte perdiam a virgindade. As que dessem uma volta em torno da Figueira ganhariam marido.

Zambom não era ilhéu, sim um catarina de Lages onde granjeara a fama. Não descende de piratas e filhas de açorianos em desterro, caso dos nativos degredados agora para os morros. 

De gênio forte, um leão enjaulado, estava sedento de vingança no presídio. Urdindo-a, parecia saciá-la em imaginação. Fôramos seqüestrados. Arrastaram-nos algemados e encapuzados ao cativeiro. 

Éramos "desaparecidos" enquanto funcionavam as câmaras de tortura e pairava a ameaça de morte. Punhos presos à barra de ferro dividindo o espaço de porta-malas nos carros-fortes, transferiam-nos de cárceres após os interrogatórios.

Cadeia é suplício lento com choques nos nervos, na alma. Piora os criminosos, traumatiza e deixa seqüelas em presos de consciência. Obnubila-se a razão, altera-se o comportamento. Anne Frank, uma criança, revela em seu diário o que ocorreu a judeus perseguidos durante a repressão nazista.

Mal-entendidos perturbam o clima de solidariedade. Delatado sem causa, incorri no erro dos que atribuíram culpa aos torturados e não aos torturadores e à repressão. 

Apinhados nos calabouços encontravam-se apenas presos de consciência, homens comuns, não heróis ou super-homens, mas humanos. Bonzão, o próprio Zambom me confidenciou que se mataria para não ser torturado de novo.

Um agitador rebelde e arteiro - sabia eu. Fora o único a tentar uma fuga que alvoroçou o quartel de polícia.

Os outros implicaram com ele e o rapaz editor de jornaleco clandestino que discutiam muito. Depois soube que me achavam mais irritante. Pena causava o jovem Wladimir, conduzido à noite para os porões onde lhe arrancavam nomes dos raptados em Santa Catarina.

Uns cumpriram penas, outros foram absolvidos, e sobreveio a anistia. A morte libertou de vez meu melhor amigo, companheiro de escola e de trapiche, como em conseqüência levara antes outro colega da faculdade. 

Outros nunca mais foram os mesmos, a exemplo de Osíris afastado do magistério e recolhido a seu violino em igrejas e restaurantes. O médico seviciado durante o seqüestro perdeu o juízo e os bens que distribuiu aos pobres, abandonando a clínica para percorrer as favelas como um curandeiro indigente.

A primeira versão sobre Zambom era a de que também perambulava como um louco pelas ruas, arrastando latas vazias, seguido por cães vadios. Uma balela! Mas havia controversas a seu respeito. A sua aparição foi na Praça da Figueira.

Obrigatoriamente ocupada pelas criancinhas e professoras dos grupos escolares, a área fora isolada pela polícia. O governo estipendiara pequeno bando que portava faixas, espoucava fogos, enquanto a banda e os alto-falantes se revezavam para dar impressão de festa na Ilha.

Impedida a aproximação do povo, nas imediações o trânsito proibido aos carros particulares.

No Palácio Rosa, a comitiva de oito ministros, assessores graduados e guarda-costas assistiam à assinatura de convênios pelo chefe general. Mas este não pode discursar à sacada.

Zambom fretara táxis, burlara a vigilância e, à frente dos estudantes, rompera o cerco. Primeiro desembarcaram as mocinhas, seguindo a dama de blusa vermelha e sombrinha na mão, a qual simulara chefiar delegação de convidados à cerimônia. 

Mais de uma centena de meninos surpreenderam a guarda, e o povaréu aproveitou a confusão para formar atrás da faixa com os dizeres "Puxa-Saco", gritando "abaixo a ditadura".

A Figueira vibrou com Zambom, uniu-se às vaias, todo mundo de mãos fechadas dando figas ao general. 

Atingido pelos coquinhos atirados pela criançada, este não se conteve e mostrou-lhes um ânus, sinalizado com os dedos da mão, provocando em coro a resposta: "cavalo, cavalo, cavalo"; "um, dois, três, quatro, cinco, mil...etc."

Os grupos escolares debandaram, enquanto os manifestantes se aglomeraram às portas do prédio.

Aos empurrões, desvencilhando-se de subalternos e guarda-costas, o general desceu as escadas para brigar. Não tinha sangue frio como os outros, os mandantes de crimes e atentados. 

Protegidos por um batalhão de agentes, ele e a comitiva, o féretro da ditadura, caminharam sob vaias e saraivada de coquinhos em direção ao café "Ponto Chic".

Ao se engalfinharem os manifestantes com a comitiva e sua segurança, a mulher de blusa vermelha jogara longe a sombrinha ao erguer o braço e desferir um pé de ouvido no ministro orelhudo que rolou no chão, cara com cabinas telefônicas. 

Visara o general chefe, que atingiu em cheio com novo soco. Arrancou a peruca e a saia, ficou de calça e, com o que era uma camisa vermelha, mostrou-se homem no meio da luta. Zambom que se vestira de mulher.

Um brutamontes, ex-massagista de futebol, desferiu um coice de mula no rosto da mocinha a seu lado e, dela, mal se noticiou a morte.

Com a intervenção da tropa de choque, a desventurada comitiva pode bater em retirada. Em Brasília, os membros garganteavam como se tivessem levado vantagem na briga. 

E explicavam que os manifestantes "eram jovens entre dezessete e vinte anos, dirigidos por outro de camisa vermelha, mais velho". Constrangidos entre repórteres de jornais, rádios e televisões, procuravam minimizar o acontecimento. 

O general chefe foi taxativo: "eram cem meninos gritando". "Uns cento e cinqüenta" - aumentou o número um coronel. "Garotos e até crianças de cerca de doze anos" - contradizia-se outro ao vangloriar-se. "Crianças e jovens entre dezessete e vinte anos" - a palavra final do porta-voz da presidência.

Nunca houve uma vingança tão boa, que representasse um grande bem, como a vingança de Zambom.

Quando terminou o enterro da ditadura, aplaudidos pelo povo, os estudantes voltaram à Praça, cercaram o Palácio Rosa e, numa comemoração simbólica, proclamaram um mendigo como novo presidente.

Em grandiosos atos públicos nas cidades do País, finalmente o povo jogou a pá de cal na cova da finada.

O orgulho catarina é a Praça da Figueira.



Fonte: Vestibular1

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