Resumo - Libertinagem - Manuel Bandeira

O resumo de livro serve para você relembrar, rever o que foi lido para a hora da prova. Nada substitui a leitura da íntegra do livro!

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Libertinagem - Manuel Bandeira

             Manuel Bandeira tem sido considerado um dos maiores poetas brasileiros do século XX. Nasceu em 1886, no Recife, e lá passou a infância entre pessoas e imagens que povoariam sua poesia, como Totônio Rodrigues, Irene, Rosa, os avós, o porquinho-da-Índia, a rua da União, o Capibaribe... evocados em Libertinagem: "Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô". Sobre essa época, o poeta diria, em sua obra Itinerário de Pasárgada: "Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante."
            De 1896 a 1902, morou com a família no Rio de Janeiro e em 1903 foi para São Paulo e matriculou-se na Escola Politécnica, intentando preparar-se para ser arquiteto: "Criou-me desde eu menino para arquiteto meu pai ..." Seus planos seriam frustrados; adoece do pulmão no ano seguinte, 1904: "Foi-se-me um dia a saúde. 
             Fiz-me arquiteto? Não pude. Sou poeta menor, perdoai!" Volta ao Rio e inicia uma longa peregrinação em busca de climas serranos: Campanha, Teresópolis, Maranguape, Uruquê, Quixeramobim, até finalmente embarcar para a Europa, em 1913, a fim de tratar-se no sanatório de Clavadel. Com a Primeira Grande Guerra, retorna ao Brasil em 1914. Entre 1916 e 1920 perde a mãe, a irmã que lhe servia de enfermeira - " O Anjo da Guarda"- e o pai. Passa a morar na rua do Curvelo, "onde reaprendi os caminhos da infância" e onde escreve três livros: Ritmo dissoluto, Libertinagem e Crônicas da Província do Brasil, além de vários dos poemas de Estrela da manhã.
            Contrariando todas as previsões pessimistas - inclusive a de um grande especialista de Clavadel - Manuel Bandeira viveria até os oitenta e dois anos de idade, tempo para tornar-se um dos mais expressivos e queridos poetas de nossa literatura.
            A obra de Manuel Bandeira é abrangente na temática e no aspecto formal: percorrem-na os assuntos do cotidiano, o prosaico, ao lado dos grandes temas tradicionais da poesia, como o amor, a saudade, a solidão, a infância, a família, a morte - esta, uma constante. Cultivou as formas fixas do Parnasianismo crepuscular e também fez experiências com o Concretismo. Não quis participar diretamente da Semana de Arte Moderna de 1922, mas a declamação de seu poema "Os sapos", uma clara crítica à poesia parnasiana, causou furor. Fez grandes amigos entre os modernistas e manteve com eles vasta correspondência.
            Personalista, sua poesia assemelha-se a uma espécie de diário íntimo em que os acontecimentos do mundo se refletem nas imagens da vida íntima e pessoal, como se a expressão poética resultasse da soma entre a confidência e a notação exterior, a contemplação da realidade, numa atitude de estranheza do poeta em relação ao mundo. Surge aí a força humanizadora de sua poesia, marcada por intensa paixão pela vida e por ardente ternura. 
             Tal atitude não pressupõe o sentimentalismo fácil; ao contrário, deplora-o através do despojamento, da simplicidade e da reflexão. Reveste-a o tom irônico e tantas vezes amargo de seus poemas, em que se destacam ainda temas como o tédio, a melancolia; o amor, o erotismo; a solidão, a angústia existencial; o popular e o folclórico; a fuga do espaço, o escapismo -"Vou-me embora pra Pasárgada/Lá sou amigo do rei"...
            Libertinagem foi publicado em 1930 e contém trinta e oito poemas escritos entre 1924 e 1930; na maioria deles, podemos observar a intenção do poeta de romper com as formas tradicionais, acadêmicas e passadistas. Esta tem sido considerada a obra mais vanguardista de Manuel Bandeira, aquela em ele praticou mais livremente a própria liberdade formal, valendo-se de versos e estrofação irregulares e abandonando a rima, além de empregar largamente o coloquial, numa atitude inequivocamente antiformalista. Exemplos claros são "Poética", verdadeira profissão de fé modernista, e "Poema Tirado de Uma Notícia de Jornal":

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo.

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar às mulheres etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbados
O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

POEMA TIRADO DE UMA NOTÍCIA DE JORNAL

João Gostoso era carregador da feira-livre e morava no morro da Babilônia num
num barracão sem número
Uma noite ele chegou no Bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

             O lirismo puro, singelo também está presente no livro, no tom de confidência e nas recordações da infância, da família e de pessoas queridas, e geralmente expresso na mesma linguagem coloquial:

O IMPOSSÍVEL CARINHO

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias de tua infância!

MADRIGAL TÃO ENGRAÇADINHO

             Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha vida, inclusive o porquinho-da-índia que me deram quando eu tinha seis anos.


IRENE NO CÉU

Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:
- Licença, meu branco!
E São Pedro, bonachão:
- Entra, Irene, você não precisa pedir licença.

             A presença da morte - a "iniludível" - que marcou toda a sua vida - a "que podia ter sido e que não foi" - colabora para acentuar o tom de melancolia que o eu poético tenta inutilmente disfarçar, misturando-o ao tom de pastiche:

PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.

.............................................................................................

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.


ANDORINHA

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...

             A marca da (auto)ironia mantém-se até o final do livro e coincide com o exercício metalingüístico do poeta, ao expressar o que deseja de seu último poema:

O ÚLTIMO POEMA

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.



Fonte: Vestibular1

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