Resumo - Cidade de Deus - Paulo Lins

O resumo de livro serve para você relembrar, rever o que foi lido para a hora da prova. Nada substitui a leitura da íntegra do livro!

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Cidade de Deus - Paulo Lins

1. Enredo

A História de Cabeleira

                Inicia-se o livro com Busca-Pé e Barbantino se drogando e a narrativa descrevendo as características físicas e particulares do empreendimento imobiliário que foi cedido para famílias de desabrigados e sem-teto que passavam necessidade no Rio de Janeiro. "Por dia, durante uma semana, chegavam de trinta a cinqüenta mudanças, do pessoal que trazia no rosto e nos móveis as marcas das enchentes.(...) Em seguida, moradores de várias favelas e da Baixada Fluminense chegavam para habitar o novo bairro (...) Do outro lado do braço esquerdo do rio, construíram apês..."

                Entre os casos que se sucedem, intercala-se a descrição de Cabeleira , Marreco, Alicate, Salgueirinho, Pelé e Pará. Esses protagonizam a seqüência de crimes e assaltos e a disputa por melhores roubos e assaltos sempre a espera "da boa" que lhes possibilitará mudar de vida. Na divisão de poderes, Lá em Cima: Cabeleira, Marreco e Alicate e Lá em Baixo: Salgueirinho, Pelé e Pará.

                A perseguição da Polícia aos bandidos é protagonizada pelo PM Cabeção e pelo detetive Touro. Astutos, conheciam o conjunto habitacional e eram tão cruéis quanto os bandidos; além de os conhecerem bem, sempre estavam na espreita dos marginais, andando fortemente armados e decididos a prender ou executar os inimigos.

                Cabeleira tem uma queda por Cleide, mulher de Alicate, mas depois de conhecer Berenice, apaixona-se pela cabrocha e passa a viver com ela. Lúcia Maracanã é parceira nas fugas e sempre recebe os marginais com carinho e dedicação. Bá é dona de uma boca de fumo e, sempre protegida, abastece os bandidos de droga.

                Os roubos que começam em Cidade de Deus, aos caminhões de gás, extrapolam os limites. Cabeleira era sempre decidido a roubar e nunca ficava sem dinheiro, e sempre "na ânsia de rebentar a boca".

                Entram na trama Dadinho, Cabelinho Calmo, Bené e Sandro Cenourinha, ainda crianças, na iniciação da vida do crime já liderando seus bandos. Enquanto isso, Cabeleira se impõe, executando um delator e o detetive Touro continua na procura dos criminosos. Cabeleira, Carlinho Pretinho, Pelé e Pará planejam um assalto sensacional a um motel. Resolveram levar Dadinho, que na fuga desaparece, mas não morre e volta a cena mais tarde. Touro e Cabeção trocam tiros com todo mundo as anciã de pegar alguém.

                A seqüência de crimes não se reduz aos protagonistas da trama. Casos absurdos são descritos, como o do marido traído que esquarteja vivo o filho que não era dele, entregando-o à sua mulher numa caixa de sapatos e do outro cortou a cabeça do "Ricardão" e entregou-o para a mulher numa sacola plástica.
                A violência se materializa no dia-a-dia e vai se formando o tecido cultural das crianças de Cidade de Deus. Os meninos dividem seu tempo entre heróis da TV, pipas, brincadeiras, banhos de rio, aulas e a iniciação ao consumo de drogas.

                A vida do crime continua, em paralelos aos costumes da comunidade, aos bailes, pelas biroscas, pelas vielas de Cidade de Deus e suas particularidades. Num desses bailes, Salgueirinho, que era galã disputando a tapa pelas meninas, volta para casa com uma cabrocha que morava nas Últimas Triagens e pela manhã, quando sai para a farmácia, é atropelado e morre. Diz-se que é por causa da macumba de uma mulher abandonada por ele. Seu enterro foi prestigiado por mais de duas mil pessoas e todas as suas mulheres compareceram.

                Touro elimina um ex-policial e cruza com um sargento do Exército que acabava de ver Pelé e Pará assaltando um ônibus. Eles perseguem os bandidos e após a captura executam os marginais . A narrativa descreve a vida dos dois e como foram parar na Cidade de Deus. A tensão da trama é forte e até a matança de um gato para fazer "churrasquinho de feira" é descrita de maneira impressionante, dado o suspense da narrativa.

                Jorge Nesfato tem seu fim como condenado por treze crimes que não cometeu, além de ser condenado pela mulher. Marreco é perseguido e apanhado por Cabeção. Acaba conseguindo fugir, mas na fuga uma bala perdida mata uma criança, colocando a comunidade em desespero. A operação de tráfico de drogas é comandada por Damião e Cunha. Damião mata Cunha para obter poderes e para ficar com Fernanda, que é mulher de Cunha. Como Fernanda não aceita, ele a espanca e some para nunca mais voltar.

                Marreco apresentava comportamento esquisito: enlouquecia os vizinhos, repetindo que era filho do Diabo; estuprou uma paraibana casada e queria matar qualquer um que atravessasse seu caminho. Laranjinha não pára para falar com ele e só por isso é jurado de morte. Mesmo assim executa um assalto de sucesso e como Cabeleira se deu bem, assaltando o pagamento de uma construtora, eles vão juntos comemorar. A comemoração dura vários dias de intenso consumo de drogas. Depois da comemoração, Marreco volta a estuprar a paraibana que não oferece resistência, mas o marido surpreende Marreco e mata-o com uma facada. Ao enterro somente Lúcia Maracanã compareceu, porque seus amigos temeram o cerco da polícia.

                Alicate pensa em mudar de vida. Acaba deixando a Cidade de Deus e tornando-se evangélico da Igreja Batista, em cujo templo trabalha e prega o evangelho. Cabeleira procura Madrugadão, seu novo parceiro, que lhe diz que Cabeção está cada vez mais ofensivo no cerco contra ele. Cabeleira vê em sonho seus amigos mortos, Marreco, Salgueirinho, Haroldo, Pelé e Pará, com a mesma indumentária e em meio a muito sangue. Marreco no sonho aconselha-o a matar Cabeção , se não quiser ir para a companhia deles no outro plano.

                Cabeção executa Wilson Diabo e jura que o próximo é Cabeleira. Eles trocam tiros pelas ruas de Cidade de Deus, mas nenhum consegue atingir o outro. Marimbondo empresta uma pistola 45 e um fuzil para Cabeleira igualar-se a Cabeção. Ari, o irmão homossexual de Cabeleira , aparece e Cabeleira que não admite ter um irmão assim, se atem em se livrar do irmão para que ele não fique em Cidade de Deus. Enquanto Cabeção é implacável em sua caçada, a narrativa descreve sua vida, seu comportamento e seu ingresso na polícia. Ele continua a perseguir Cabeleira pelas vielas e acaba sendo surpreendido pelas costas por um vingados que o mata. Cabeleira fica sabendo do assassinato, mas nem sai de casa.

                A narrativa volta ao início e conta a história de Busca-Pé e Barbantino, seus sonhos e a maneira de vida dos cocotas e playboys dos subúrbios e favelas cariocas. Da mesma forma é contada a história de Dadinho, como sua mãe ganha uma cadeira de engraxate a qual lhe servia para fazer assaltos e como ela descobre que Dadinho se inicia na vida do crime."...acordou Dadinho a tapas e chorando perguntava com o revólver nas mãos:

                - Pra que isso?
                - É pra assaltar, matar e ser respeitado!"


                Volta à seqüência do assalto ao motel, Dadinho encontra Cabeleira que promete uma grana pelo serviço do assalto e Dadinho pede um revólver. Vão à casa de Marimbondo e são convidados a para novo roubo. Cabeleira não vai. Dadinho e Marimbondo fazem o assalto e se dão bem. No dia seguinte são noticias nos jornais. Empolgados, tramam o próximo crime, desta vez com Bené incorporado ao grupo.

                O detetive Touro procura Marimbondo em casa onde se homiziavam, mas eles estavam assaltando uma gráfica. O insucesso revolta o detetive. "Pensava com brutalidade em tudo o que ocorria, porque era bruto, seu nome era Touro, sua fala, suas idéias. A vontade de querer mandar em tudo sempre lhe fora pertinente." Ainda continua rondando a casa de Marimbondo, enquanto os bandidos se escondem no mato após o roubo da gráfica.

                Cabeleira se cansa de ficar entocado com os colegas e resolve sair sozinho. Queria ver os amigos de Cidade de Deus . A narrativa descreve uma manhã calma e silenciosa."...então por que aquela aflição? Por que aquela vontade de voltar para perto dos amigos? Aquela sensação de vazio lhe trazia sobressaltos, frios na espinha.(...) A qualidade da paz era superlativa também na Rua do Meio e fazia crescer aquele temor, temor do nada.(...) Não sabia o porquê, mas pequenos pedaços de sua vida vinham-lhe repentinamente de modo sucessivo. As mais vivas cores do dia tornaram-se significantes de significados muito mais intensos, confundindo a sua visão. O vento mais nervoso , o sol mais quente, o passo mais forte, os pardais tão longe dos homens, o silêncio inoperante, os piões rodando, os girassóis vergando-se, os carros mais rápidos e a voz de Touro agitando tudo: - Deita no chão, vagabundo! Cabeleira não esboçou reação. Ao contrário do que se esperava Touro(...) Talvez nunca tenha buscado nada, nem nunca pensara em buscar, tinha só de viver aquela vida sem nenhum motivo que o levasse a uma atitude parnasiana naquele universo escrito por linhas tão marginais.(...) Aquela mudez diante das perguntas de Touro e a expressão de alegria melancólica que se manteve dentro do caixão." A morte de Cabeleira fecha o primeiro capítulo.

A História de Bené

                Inicia o segundo capítulo a narrativa descrevendo a herança do tráfico de drogas em Cidade de Deus e o crescimento de Dadinho no mundo do crime. Dadinho se consultava na Umbanda e assaltava cada vez mais. Apesar disso, lá em cima os traficantes eram mais respeitados e isso o feria. Morre o traficante grande e Dadinho toma a boca de seu irmão.

                Em Cidade de Deus há mudanças no poder, que agora gira em torno do tráfico de drogas e os bandidos cada vez mais precocemente se destacam pela sua crueldade. Paralelo há um destaque para a vida dos cocotas e da "rapaziada do conceito", grupos que gravitam por fora da violência exacerbada dos bandidos e traficantes, atuando como coadjuvantes na ação dos quadrilheiros. No crime começam a destacar-se Bené e Zé Pequeno.

                Enquanto a trama centra-se na história dos cocotas, suas aventuras, as brigas nos bailes, os festivais de rock, o amor de Thiago por Angélica e seu duelo com Marisol por causa da cabrocha, Pequeno dá a boca Lá de Cima para Sandro Cenoura (já crescido) depois de matar os comandantes do tráfico. Logo após planeja dividir tudo só com Bené. "Seu sonho de ser dono de Cidade de Deus estava ali, vivo, completamente vivo, realizado (...) Traficar, era isso que estava na onda, isso que estava dando dinheiro."

                Com a morte de Cabeleira, seu irmão Ari, que atendia pelo nome de Soninha, retorna à Cidade de Deus e tem sua história de ódio com Pouca Sombra e de amor com Guimarães, que abandona a mulher para ficar com o homossexual. A narrativa descreve o submundo do homossexualismo, como eles vivem e se relacionam. Enquanto isso, uma sucessão de mortes é destacada na trama: Pequeno ameaça Bigodinho, que mata Jorge Gato e é morto por Pequeno, contrariando Acerola. Cabelo Calmo é preso quando completava dezoito anos. É encaminhado ao Presídio Lemos de Brito, onde é transformado em "mulherzinha" do xerife do presídio, um bandido que mantinha o comando interno da cadeia. Ao sair da prisão é recebido por Pequeno e Bené, mas não lhes revela sua vida no cárcere. Eles tomam a boca de Cenoura e, a pedido de Bené, Pequeno não o mata.

                A narrativa descreve fatos e costumes do Presídio de Ilha Grande e o mecanismo da corrupção no sistema. Marimbondo, que chegara ao presídio com a mesma valentia com que se destacava na favela, é brutalmente assassinado a facadas. Em Cidade de Deus, Bené se enturma e "conquista" o cocota Daniel, a quem pede que lhe compre muitas "roupas de grife" para andar na moda dos cocotas cariocas. " - Sou palyboy! - dizia Bené a todos que comentavam sua nova indumentária. Tatuou no braço um enorme dragão soltando labaredas amarelas e vermelhas pelo focinho, o cabelo ligeiramente crespo foi encaracolado por Mosca." Com sua Calói 10 ia à praia todas as manhãs, tirando a maior onda da rapaziada. No seu envolvimento com a cocotada, acaba entrando na briga de Thiago e Marisol, por causa de Angélica. Faz com que os dois amigos façam as pazes e tudo fica bem.

                A boca-de-fumo de Ari do Rafa, no morro de São Carlos, é atacada pela quadrilha de Pequeno e Bené. Simultaneamente, Nego Velho e Metralha assaltam uma rica residência. A quadrilha captura a boca de Ari do Rafa e todos, inclusive o Ari, são mortos e enterrados numa só cova. Carlinhos Nervo Duro, que dividia o poder no São Carlos com Ari do Rafa, toma partido e ataca a quadrilha de Pequeno e Bené. No tiroteio, novamente os bandidos do São Carlos levam a pior e somente Nervo Duro escapa com vida. Enquanto isso, Nego Velho e Metralha são perseguidos pela polícia em Cidade de Deus, mas escapam e dividem o roubo, em grande almoço, a quadrilha toda reunida. A polícia aparece, mas reconhece que não há condições de enfrentamento e passa reto. Manguinha e seus amigos voltam para a favela após uma série de assaltos espetaculares, disfarçados de médicos. O tráfico de armas junto à polícia e às forças armadas se intensificam e cresce a troca de donos das bocas-de-fumo. Conforme as mortes acontecem, seus responsáveis assumem a liderança das bocas e assim sucessivamente.

                Enquanto Cabelo Calmo é preso novamente, Pequeno e Bené assumem o poder de Cidade de Deus e passam a ditas as leis da favela. São convidados a ajudar Voz Poderosa, compositor da Portela, na escolha do próximo samba da escola.

                Bené vai para casa e chora com sua família contando seu sonho: "...pediu desculpas ao irmão, falou que ia ficar só mais um tempo na vida do crime para poder comprar um terreno e fundar sua sociedade alternativa."

                Enquanto isso, Touro intensifica a perseguição a ele e a Pequeno. No cerco aos marginais, os policiais Lincoln e Monstrinho prendem Bené; Touro é afastado da Polícia por ter enforcado um trabalhador numa cela.

                Preso, Bené pensa que sua vida poderia ser diferente e também que era apaixonado por Patricinha Katanazaka. Espada Incerta sai da prisão e jura para Cenoura que vai matar Bené. Vai para Realengo, vende um quilo de maconha e na comemoração fica bêbado jurando de morte toda a família de Bené. Acaba perdendo o dinheiro do tráfico e perseguido pela polícia; sua própria mãe é que morre enquanto ele é preso.

                A cocotada inventa de assaltar um açougue para dar uma festa e Daniel é a atração principal da festa após uma fuga espetacular do carro da polícia que dá um flagrante durante o assalto. A narrativa enfatiza a natureza, que ameniza os sofrimentos do povo de Cidade de Deus.

                Bené sai da prisão prometendo mandar todo mês uma quantia ao delegado. De volta à favela, poupa a vida de Butucatu, que deveria ser executado por Pequeno, pelo estupro e morte de sua ex-mulher. O criminoso não respeitou os limites da favela e por isso foi espancado pela quadrilha de Pequeno. Bené tem uma decepção com Mosca, sua mulher, que anuncia uma gravidez e decide interrompê-la. Na operação de aborto, Mosca morre.

                Após ser espancado, Butucatu planeja matar Pequeno e pouco tempo depois, ainda com dores, parte para o ataque atingindo fatalmente o abdômen de Bené, que estava em companhia de Pequeno naquele momento. Pequeno também foi baleado, mas ainda teve forças para trocar tiros com Butucatu e sobreviver. O velório de Bené foi um evento à parte. "E uma lua redonda, claríssima, encantou ainda mais o eterno mistério que a noite sempre traz, e o enterro daquela manhã de sol intenso foi o maior que já se viu."

A história de Zé Pequeno

                O terceiro capítulo começa com a inútil caçada de Pequeno a Pança e Butucatu, dois bandidos que conhecem todos de Cidade de Deus e juram em segredo matar todo mundo e a consumação do romance de Ari, o Soninha, com Guimarães, que enjoou da mulher.

                Zé Pequeno procura uma loira por quem se apaixonou. Mexe com ela e, desprezado, estupra-a violentamente na frente do namorado. Depois procura o namorado, Mané Galinha, em sua casa para matá-lo e, não o encontrando, mata seu avô. Isso causa uma enorme revolta em Galinha, que parte para a vingança obstinadamente. Galinha havia servido na brigada de pará-quedistas do Exército e tinha uma enorme habilidade com armas, além de ser forte e atlético. No primeiro confronto Galinha mata dois quadrilheiros com extrema rapidez e crueldade. "Era a primeira vez que uma pessoa atirava em Pequeno na favela, matava dois de seus quadrilheiros e fazia com ele se escondesse."

                Sandro Cenoura procura Mané Galinha para formar quadrilha e derrubar Zé Pequeno. Eles se unem e a guerra contra o bando de Zé Pequeno é inevitável. As quadrilhas aumentam e a guerra prolifera com a participação das crianças. Para manter a luta, Galinha começa a praticar assaltos, enquanto a imprensa destaca a guerra das quadrilhas de Cidade de Deus. O caos das quadrilhas em guerra é evidente, e, num dado momento, a narrativa dá uma trégua à guerra e passa a relatar outros crimes paralelos, estando Mané Galinha escondido por uns tempos. Mais tarde, voltando à sua obstinada caçada, Galinha vai à procura de Peninha e Cabelo junto com Fabiano, e acabam matando outro traficante. Aos poucos a guerra se generaliza, transformando Cidade de Deus no lugar mais violento do mundo. Seus soldados se uniformizam e, no auge do conflito, Cidade de Deus é uma praça de guerra. Após ficarem frente a frente, Pequeno atinge Galinha. Ele não morre, mas as matanças continuam na briga pelo poder do tráfico. Calmo é novamente preso e galinha é resgatado no hospital. Aumenta seu desejo de vingança pela morte de seu irmão Gilson. A polícia estava fora e, conforme passava o tempo, os bandidos iam contando suas vitimas. Mais uma vez, após um ataque de nervos, Galinha é baleado; depois, pela terceira vez, em conflito com Calmo e Madrugado, um viciado finge ajudá-lo e o atinge com vários tiros e sua morte é inevitável. O viciado vingava a morte de um irmão." A festa para comemorar a morte de Galinha atravessou três dias, enquanto Lá em Cima tudo era silêncio, ruas desertas, biroscas e lojas comercias fechadas. O Corpo de Galinha foi velado em sua própria casa, sem a presença de bandidos. Seu enterro, em número de pessoas, superou o de Bené e de Salgadinho."

                A polícia monta um novo esquema de repressão para Cidade de Deus e uma operação de grande porte é acionada na região. "A insegurança dominava a favela. Até os viciados, antes fregueses bem-tratados porque sustentavam o ganha-pão, passaram a correr riscos de vida."

                Enquanto Pequeno jogava Calmo contra Biscoitinho e tramar tomar a boca Lá em Cima, que é de Cenoura, a operação de polícia é escandalizada pelo massacre de um grupo de crianças. Mesmo assim, o cerco aumenta e o sargento Roberval prende Pequeno, mas o solta em seguida após pegar todo o dinheiro e pedir cinqüenta por cento de todo o dinheiro da boca.

                Cabelo Calmo e Biscoitinho duelam pelos becos de Cidade de Deus e Calmo é atingido, mas foge com vida. O clima de revolta pela morte das crianças continua, assim como o comando de Sandro Cenoura nas bocas Lá em Cima. A guerra com a polícia faz enorme número de vítimas que são atiradas em lugares afastados. A ex-namorada de Playboy denuncia uma reunião de traficantes, a polícia cerca o local e faz uma chacina. Isso faz com que algumas bocas troquem de dono. "Pequeno deu o azar de ser abordado pelas Polícia Civil e Militar mais seis vezes. Tanto os civis como os militares o extorquiam."

                Novamente flagrado com dinheiro, drogas e armas, Pequeno foi julgado e encaminhado ao presídio Milton Dias Moreira, onde passa a integrar a facção que dominava os presídios cariocas. Do presídio, pelo telefone, Pequeno passa as instruções a seu irmão Pinha e continua a comandar o crime, até que paga um suborno e sai do presídio, refugiando-se fora da Cidade de Deus. Cenoura é afastado da favela, mas sempre causando mortes. Cabelo Calmo se apaixona por uma professora e se entrega à polícia por insistência dela e acreditando na justiça. No segundo dia na penitenciária Lemos de Brito é assassinado a facadas por Nervo Duro.

                A sucessão dos traficantes se intensifica: Israel é morto por Conduíte, e Biscoitinho, por Lampião. Otávio que era um cocota que pensava em matar todo mundo para ser dono do tráfico, entra para a macumba e se apresenta para a quadrilha da Treze, sob o comando de Tigrinho e Borboletão. Não pede nenhum cargo de hierarquia do tráfico. Ele só queria matar. Marisol, agora taxista, leva três tiros de Zezinho Cara de Palhaço, que é preso.

                Enquanto Cenoura vai preso para a Baixada Fluminense, continua a sucessão de bandidos no poder das bocas. Otávio mata Jacarezinho, que estava sabotando a boca de Borboletão e Tigrinho. Ele domina Jacarezinho e faz com que cave a própria cova. Trajado de vermelho e preto, com uma cartola, Otávio é um assassino com requintes de brutalidade inigualáveis. " ...deu só um tiro para depois cortar o corpo de Jacarezinho com o facão. Com a própria cavadeira jogou a terra de volta para o buraco, foi até os pés da figueira mal-assombrada, acendeu sete velas, sentou em cima da cova, retirou um baseado do bolso, acendeu e fumou sem muita pressa." Depois desse crime, Otávio repete o ritual com mais de trinta vítimas e as enterra na mesma cova. É preso por dois anos e passa um tempo como pregador evangélico. Depois casou, teve filhos e jogou a culpa de seus crimes no Diabo. Alegando que fora dominado por uma força maléfica, incontrolável. Mais tarde, porém, voltou. " ...rasgou a Bíblia, queimou o terno com o qual costumava ir aos cultos e foi à boca pedir a Borboletão uma pistola para matar somente policiais."

                Messias, o último "herdeiro" do tráfico Lá de Cima, propõe trégua a Borboletão e Tigrinho na Treze. Com isso a paz volta a reinar na favela. Bastiana, a Bá, deixa o tráfico; a nova geração de cocotas continua curtindo a vida; Busca-Pé realiza o sonho de ser artista como fotógrafo; Cara de Palhaço recebe visita de Marisol, que ficara paraplégico por sua causa, e dias depois aparece enforcado na cela.

                Pequeno encontra Borboletão, que continuava com a boca dos Apês, e deixa claro que vai voltar. Tinha estado em Realengo. "O bandido tinha sua prepotência renovada e planos para ser novamente o dono de Cidade de Deus, e para isso já tinha planejado com seus parceiros de Realengo um ataque surpresa na Treze logo na primeira semana de seu novo mandato nos Apês, depois atacariam Lá em Cima."

                No entanto, na sua volta, "...Tigrinho, que observava atentamente, retirou a pistola da cintura, deu um tiro no abdômen de Pequeno e saiu correndo junto com Borboletão". O bando de Pequeno se entocou nos Apês, Pequeno morreu ao som dos fogos de Ano-novo e eles voltaram para Realengo. Logo após a morte de Pequeno a narrativa se encerra. "Lá na Treze, Tigrinho, bem cedinho, mandou um menino moer vidro, colocá-lo dentro de uma lata com cola de madeira. Depois do cerol feito, passou-o na linha 10 esticada de um poste ao outro. Esperou o cerol secar na linha, fez o cabresto, a rabiola e colocou uma pipa no alto para cruzar com as outras no céu. Era tempo de pipa na Cidade de Deus."

2. Comentários

                "Cidade de Deus" é uma história de guerra. Não só a guerra na favela, mas uma constante disputa por poder, ascensão social e dinheiro. O romance toma variadas direções e tendências estéticas, ora explícitas na narrativa, ora simplesmente sugeridas no desencadear dos fatos. É o fruto de exaustiva pesquisa na qual Paulo Lins protagoniza uma favela como metáfora da sociedade carioca e da sociedade brasileira.

                Escrito em terceira pessoa, "Cidade de Deus" é extensa narrativa que pode ser analisada como romance naturalista, quando descreve o modo de vida de seus personagens. A infância dos bandidos, nas brincadeiras de pipa, pião, futebol, nos banhos de rio e no contato com a natureza, marca esse naturalismo e depois, na maturidade do crime como única forma de sobrevivência, é a violência que comanda os destino, imperando a lei do mais forte, como se todos fossem animais vivendo numa selva urbanizada e primitivamente civilizada. A animalização está presente no modo de agir dos bandidos: o consumo de drogas, o tipo de alimentação, o prazer do sexo, a organização de suas casas e a forma naturalmente cruel como se matavam uns aos outros.

                Outro caráter que podemos sentir em todo o livro é o realismo. O autor parte de fatos reais para estruturar o romance a adapta sua linguagem através de minuciosa pesquisa lingüística (diálogos, termos, gírias, palavrões) que permite, juntamente com a realidade dos fatos, apresentar ao leitor uma trama independente de qualquer sentimentalismo que possa amenizar a crueza imutável dos acontecimentos.

                Muito definido também é o caráter expressionista. O exagero e a insistência da narrativa em descrever pormenores e detalhes dos crimes é característica que Paulo Lins mantém durante todo o livro e que destaca a forma grotesca pela qual o autor valoriza a violência e o suspense em cada gesto dos personagens.

                Ainda podemos destacar o caráter de transformação que, ajudado pelo desenrolar dos fatos através de um longo período de tempo, marca a mudança de todos os componentes da trama. O conjunto habitacional transforma-se em favela, as crianças se transformam em bandidos, a polícia se corrompe, a natureza é poluída, os valores sociais se modificam etc.

                Essa mescla de estilos é que mantém a estrutura do romance em constante tensão. A realidade se contrapõe à ficção, a natureza à urbanização, a civilização organizada à anarquia, a ambição do poder à simplicidade da vida e o progresso à decadência.

                Tecnicamente o romance divide-se em três partes (capítulos). A narrativa tem estilo cinematográfico, em que o detalhamento das cenas é a maior característica. Há constante fragmentação que interrompe os casos narrados e também insere descrição dos personagens que entram na trama. Mesmo assim o romance segue uma cronologia linear em relação ao tempo real dos acontecimentos, com exceção de alguns flashbacks.

                A primeira parte, "A História de Cabeleira", narra a ocupação de Cidade Deus e a formação das quadrilhas. A ambição é individual, a relação com as drogas é mais no sentido do próprio consumo, e o que move a criminalidade dos bandidos é a vontade de fazer um grande assalto e viver o resto da vida nos moldes ideais dos burgueses. A participação da polícia é efetiva, que de forma violenta e implacável procura eliminar os criminosos. Destaca-se ainda o amor e o casamento. A Segunda parte, "A História de Bené", tem seu maior enfoque na busca do comando da favela por meio do tráfico de drogas e na nova geração de criminosos que dão proteção à comunidade. Também se destaca a ascensão dos cocotas como uma tribo social de características marcantes, a corrupção do sistema carcerário e a maneira de viver dos homossexuais. A terceira e última parte, "A História de Zé Pequeno", traz a guerra propriamente dita e a seqüência interminável de sucessores no comando do tráfico. Emerge a figura do justiceiro implacável, Manoel Galinha, que, no entanto, não modifica o destino da marginalidade.

                É importante destacar a relação dos moradores de Cidade de Deus com a morte. A importância de um bandido, por serem eles que faziam as leis de proteção à comunidade, era medida pelo número de pessoas que iam ao seu enterro ou pelo silêncio diante de alguma vítima de sua crueldade. Era o respeito a essas regras que fazia com que houvesse a paz.

                "Cidade de Deus" é ainda um romance que traz fortes traços culturais de um povo predominantemente negro, cultuador da Umbanda e do Candomblé, devoto de São Jorge, amante do carnaval e dos ritmos brasileiros como o samba de partido alto, hoje mais conhecido como pagode; tradicionalmente freqüentador de clubes e bares, da praia do final de semana, da culinária associada às comidas fortes e ao consumismo popular por influência da mídia.

3. Personagens

                "Cidade de Deus" envolve grande número de personagens. Os protagonistas se sucedem de acordo com o sucessivo e interminável número de mortes. Diante dessa característica, toda a trama é protagonizada principalmente pela própria Cidade de Deus. Por isso destacaremos somente os três principais, até porque o perfil descritivo da maioria dos protagonista se assemelha com o deles:

                Cabeleira: Era negro de família humilde. Seu pai era alcoólatra e a mãe, prostituta. Elegante no andar, bom porte físico, bem sucedido com as garotas, habilidoso capoeirista, Cabeleira representa o anti-herói, surreal e lírico. Não estupra, respeita a comunidade e a rapaziada do conceito. É com ele que começa a respeitar os limites da favela para se assaltar. Cabeleira, no entanto, é cruel e maldoso com seus inimigos, mata sem piedade e sempre se vê protegido por seus exus e pombagiras.

                Bené: É cria de Cidade de Deus. Sua crueldade fizera com que herdasse, junto com Zé Pequeno, todo o poder do tráfico na favela. Admira os cocotas e, depois que se enturma com eles, passa a se vestir só com roupas de grifes famosas e tatua um enorme dragão no braço. É negro, baixinho e gordinho. Não é feliz no amor e sonha em ganhar muito dinheiro para fundar uma comunidade alternativa.

                Zé Pequeno: Também negro baixinho e gordinho, é o mais feio dos bandidos. Sua crueldade é a mais temível de toda a narrativa. Sonha em ser dono de Cidade de Deus e para isso não poupa ninguém. Constantemente coloca seus amigos uns contra os outros. A risada fina, estridente e rápida, acompanha suas ações de crueldade e é sua marca registrada. Totalmente infeliz no amor, estupra a namorada de Manoel Galinha, fato que gera a guerra na favela. Representa o poder do submundo do crime. É o que mais enriquece com o tráfico e que comanda a favela por mais tempo, inclusive de dentro da prisão. Seu fim finaliza o romance mas não finaliza a história de "Cidade de Deus".



Fonte: Vestibular1

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