Resumo - Aniversário - Álvaro de Campos

O resumo de livro serve para você relembrar, rever o que foi lido para a hora da prova. Nada substitui a leitura da íntegra do livro!

mais livros exigidos

» 

Anão de Jardim - Lygia Fagundes Telles

Em Anão de Jardim, conto de Lygia Fagundes Telles, o fantástico é fruto da união da humanização da coisa (estátua) e das próprias características do ser que ela representa (anão). 

O conto é narrado em primeira pessoa. Assim, a autora não apenas nomeia o inominável, como também confere-lhe sua própria linguagem. 

A história é banal. Kobold, um anão de pedra aguarda a demolição da casa em cujo jardim conheceu a plenitude de sua existência inanimada. 

Abandonado no caramanchão junto a um violoncelo quebrado, observa o trabalho dos operários enquanto relembra os fatos de sua existência. 

O destino de Kobold é o mesmo da casa, também está sujeito ao abandono e à destruição. 

Porém, o destino de ambos é idêntico ao do proprietário da residência. O Professor foi envenenado aos poucos com arsênico pela esposa. Hortênsia o traia e pretendia desfrutar a herança com o amante. Após a morte do Professor, ela vendeu a casa e desapareceu. 

Todos foram embora e o anão ficou "como o homem que é prisioneiro de si mesmo no seu invólucro de carne, a diferença é que o homem pode se movimentar". 

O professor era o único que compreendia o anão. Foi ele que comprou-o num antiquário, instalou-o no caramanchão e deu-lhe o nome de Kobold. 

Conversava muito com a estátua, mas era tão ingênuo que, às vezes, despertava a ira do anão. 

O conto desnuda os problemas resultantes da interação entre as pessoas mediada pelas coisas. Lygia sugere que a humanização dos objetos equivale à desumanização das pessoas. 

O Professor dá atenção a Kobold, Hortênsia ao patrimônio do esposo. Mas, o comportamento de ambos é semelhante. 

Afinal, se Hortênsia somente vê o Professor como uma coisa, cujo desaparecimento franqueia-lhe o acesso à outras (a herança), ele mesmo atribui à esposa um valor menor que o de um objeto inanimado. 

Afinal, o Professor entrega-se às conversas com o anão de jardim, mantendo a esposa na mais abjeta solidão. As coisas que mediam as relações entre ambos não são nem poderiam ser culpadas pela distância existente entre eles. 

É sintomático que só Kobold tenha se dado ao trabalho de narrar a história do casal. Nenhum dos dois estava realmente interessado naquele casamento. Mesmo tomando a defesa do Professor, é impossível ao anão esconder o quanto seu amigo era cruel. 

Cruel ao ponto de dar mais atenção a uma estátua que a esposa. Em "Anão de Jardim" é patente a preocupação da autora em desmascarar o cinismo existente nas relações interpessoais. Para Lygia parece que todo o tecido social está doente, porque sua célula mater (a família) não funciona como deveria. 

Distanciamento, impessoalidade seriam as causas da infelicidade e, em última análise, da violência. 

Violência que não é só física (como o envenenamento de Professor) mas também e principalmente psicológica (como o desprezo devotado a Hortênsia). 

Às coisas, impassíveis, inanimadas e, portanto, irresponsáveis pelo desconcerto do mundo, só restaria observar e contar a história de seus donos. 

Fazendo isso, mesmo que tomem partido, e justamente porque o tomam, denunciam à que ponto chegaram os seres humanos num tempo em que suas relações já não são diretas, mas mediadas pelos objetos. 

Enfim, só mesmo a eloqüência da pedra para aquecer nossos corações que se tornam mais surdos e mudos a cada dia que passa. É aqui que o trabalho com a linguagem assume o primeiro plano. 

Lygia não apenas nomeia o inominável, mas confere vida e linguagem ao seu personagem fantástico. Mas não será isso outro índice da impossibilidade de comunicação entre os seres humanos? É preciso que Kobold, um ser inanimado, narre a história em primeira pessoa para percebermos o quanto nossa própria linguagem tornou-se uma prisão. 

A história de ambos é tão banal que não despertaria qualquer atenção se fosse contada por um narrador mimético, cuja linguagem se aproximasse da empregada pelas personagens. Afinal, o Professor fala com a pedra e Hortênsia engana-o a propósito de envenená-lo. 

O discurso de um é excessivamente auto-centrado o da outra mentiroso. Rompendo com a lógica usual, "Anão de Jardim" alerta-nos o quanto esta lógica é apenas aparente. 

Absurda não é a literatura, mas o mundo a que ela destina-se. No fundo, a realidade tornou-se tão fantástica que a arte já não pode nem consegue mais imitá-la. 

É preciso recriá-la como linguagem e representação para que possamos tomar contato com ela tal como ela é. Enfim, só o inusitado confere à obra alguma verossimilhança em relação ao meio em que ela foi concebida e para a qual retorna. 

Intencionalmente ou não, em seu conto Lygia revela sob as camadas textuais uma preocupação essencialmente estética. 

Mais que isso, sugere um novo conceito de mimesis. A questão então é saber até que ponto poderemos suportar-nos diante dele. "Anão de Jardim" não é um enigma. 

É a própria esfinge, pronta para devorar-nos se não formos capazes de responder às suas indagações. Sob a roupagem de felino alado com cabeça humana do conto está o próprio leitor. Defrontado com o espelho, será ele capaz de responder à pergunta "o que sou eu?" 

É impossível deixar de notar o sutil parentesco entre o conto analisado e "Os objetos" da mesma autora. Neste, a tensão é gerada pela maneira distinta como as personagens encaram as coisas. 

Lorena acredita que elas tem valor em si mesmas e Miguel que o valor delas reside na sua utilidade para o homem. Há uma vaga possibilidade de que Kobold seja o mesmo anão de jardim que Lorena e Miguel viram no antiquário onde estiveram. 

Isto aumenta as relações entre os dois textos. A diferença entre ambos não reside apenas no foco narrativo, de terceira pessoa em "Os objetos" e de primeira em "Anão de Jardim", mas principalmente no caráter mimético e fantástico dos narradores. 

Ambos contos tratam do mesmo tema, porém, de ângulos diametralmente opostos. No último a impessoalidade é levada a um extremo inexistente no primeiro. O que teria mudado? O mundo, a escritora ou ambos? 

Estas são questões difíceis de serem respondidas. Todavia, o parentesco entre as obras denota mais que uma constante preocupação com o mesmo tema. 

A mudança na abordagem, o aprofundamento do questionamento acerca da intermediação das relações humanas pelos objetos mostram o quanto Lygia tem feito e ainda pode fazer pela literatura. 

Particularmente pelo gênero fantástico em que vazou o conto, sem dúvida alguma um dos melhores contos já escritos em língua de anão de jardim.



Fonte: Vestibular1

O resumo de livro serve para você relembrar, rever o que foi lido para a hora da prova. Nada substitui a leitura da íntegra do livro!

mais livros exigidos

» 

Aniversário - Álvaro de Campos

A não distribuição uniforme dos versos e a despreocupação com a distribuição rítmica dão ao poema um tom confessional, aproximando-o de um texto em prosa. 

As lembranças relatadas no texto referem-se a uma data específica lembrada pelo eu-poético - o dia do aniversário. 

Esta data é a propulsora para outras recordações da infância e outras angústias do eu-poético, servindo também como ponto de referencia temporal quando o eu-poético intercala-se e contrapõe-se entre o passado e o presente. 

A época da infância no poema é marcada pela inocência, pois a criança ainda não tem noção do que se passa à sua volta: "Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma". 

A passagem da criança para o adulto é marcada por uma perda, pois ele percebe que a vida não tem mais sentido. 

O poeta hoje "é terem vendido a casa", ou seja, é um vazio, que perdeu, inclusive, o bem mais precioso, a sensação de totalidade, de alegria, de aconchego dado pela vida em família na infância longínqua. 

Assim, a festa de aniversário toma o aspecto simbólico de um ritual familiar e religioso, dentro do qual a criança se torna o centro de um mundo que a acolhe e protege carinhosamente. 

"As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa", denota, com esta adjetivação uma característica comum a toda infância: o egocentrismo. 

No presente, não há mais aniversários nem comemorações: resta ao poeta durar, porque o pensamento amargurado, critico e pessimista da vida o impede de ter a inocência de outrora. 

O tom nostálgico e angustiado do poema dá a sensação de que o eu-poético vive uma introspecção conflitiva relembrando um passado supostamente mais feliz que o presente. O trecho "serei velho quando o for. Nada mais." parece querer dar fim a este conflito interno. 

"Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira !..." conclui o tom confessional do poema e enfatiza uma espécie de conformismo ríspido e amargurado com o presente melancólico e sem perspectiva em relação a vida. 

"O tempo em que festejavam o dia dos meus anos !" é repetida muitas vezes no texto dando ênfase a importância da data na lembrança do eu-poético, servindo também para marcar a justa contraposição entre passado e presente, respectivamente infância e fase adulta. 

O ultimo verso do poema sugere uma acomodação amargurada em relação ao passado. 

Em "Eu era feliz e ninguém estava morto" pode-se notar novamente o conformismo com o presente que pode não ser o idealizado, mas que está alicerçado em um passado inocente, de aspecto virginal, contrapondo-se com a atual falta de perspectivas e a desmotivação para a vida, onde ele diz: "Hoje já não faço anos. Duro." 

O eu-poético oraliza um tom de amargura versificado de forma clara, coesa e coerente, marcando com precisão verbal os estados temporais e emocionais a que se refere no poema. 

Por se parecer com uma "auto-confissão poética", pode-se afirmar que o eu-poético insere no texto características comuns às pessoas que estão prestes a deixar o mundo material, ou que neste não sentem mais vontade de estar por muito mais tempo. 

A reflexão conflitiva e melancólica sobre o passado, a amargura em relação ao presente e sensação de que o tempo passou e algo que deveria ser resgatado perdeu-se em um passado longínquo, são características comuns em pessoas que encontram-se neste estágio da existência humana.



Fonte: Vestibular1

0 comentários:

Postar um comentário