Resumo - A Máquina de Escrever - Guiseppe Guiarone

O resumo de livro serve para você relembrar, rever o que foi lido para a hora da prova. Nada substitui a leitura da íntegra do livro!

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A Máquina de Escrever - Guiseppe Guiarone

Mãe, se eu morrer se um repentino mal, 
vende meus bens a bem de meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro carnaval...

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo.
E aquele terno novo - quase novo!...
co'algumas manchas de café boêmio

Vende também meus óculos antigos, 
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído,
é mais provável que eu alcance o céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
Requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei de meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um belchior qualquer,
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo ao findar a minha sorte,
libertando minh'alma pensativa,
para ninguém chorar a minha morte,
sem realmente desejar que eu viva!

Podes vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Sim; poupa minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro.
Mas... não! Ainda que te ofereçam ouro
Não vendas o meu filtro de tristezas

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal!...
Ela, que é minha rude ferramenta
e meu doce instrumento musical!...

Bate rangendo numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma!...

Pois será para ela uma tortura
sentir, nas bambas teclas solitárias,
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura!!

Deixa-a morrer também, quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera de meu último poema,
que as palavras não dão para fazer.

Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando meus íntimos instantes.
E, nas noites de lua, não te espantes,
quando as teclas baterem, devagar...



Fonte: Vestibular1

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