Resumo - A Carta a El Rei D. Manuel - Pero Vaz de Caminha

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A Carta a El Rei D. Manuel - Pero Vaz de Caminha

            Com a Carta a El-Rei D. Manuel I Sobre o Achamento do Brasil, o seu autor, Pêro Vaz de Caminha, cumpriu a sua função de escrivão pertencente à armada de Pedro Álvares Cabral e deixou um documento histórico de grande importância.

            Pêro Vaz de Caminha nasceu no Porto em 1437 e crê-se que foi assassinado na Índia, na feitoria de Calicute, em 1500, por mouros.

            O autor foi cavaleiro das casas de D. Afonso V, D. João II e D. Manuel I. A História colocou-o entre aqueles que, como já referimos, se encontravam na armada de Pedro Álvares Cabral.

            A armada que saiu do estuário do Tejo em direção à Índia, e que devido a um «erro» de cálculo descobriu as Terras de Vera Cruz, era composta por doze naus e uma caravela.

            A Carta, datada de 1 de Maio de 1500, é um testemunho das primeiras impressões recolhidas pelos portugueses ao chegarem ao novo mundo. 

            Este registro histórico permaneceu inédito durante três séculos, porque não lhe foi atribuída grande importância pelos historiadores da época. Só foi publicada em 1817 no âmbito da obra Coreografia Brasileira da autoria do Padre Aires do Casal. 
            Encontra-se neste momento na Torre do Tombo, em Lisboa.

            A Carta de Achamento do Brasil é, segundo afirma Carlos Eduardo do Soveral no Dicionário de Literatura "o mais vivo testemunho relativo ao reconhecimento oficial da terra de Vera Cruz. 

            Nela se patenteia com pitoresco inexcedível a impressão que no civilizado, saído da Idade Média, infunde o espetáculo genesíaco, e também, especialmente, o atrativo que a mulher indígena exerce na forte compleição do português. Com esta carta se pode considerar de algum modo inaugurado o ciclo do bom selvagem, ou do primitivismo, que encontra a maior expressão na obra de J. J. Rousseau. Datada de 1 de Maio de 1500, só em 1817 foi impressa pela primeira vez."

            O texto participa simultaneamente do modelo epistolográfico (não falta sequer a direito a favor de seu genro Jorge d'Osoiro) e da forma diarística, o que determina uma alternância de tempos verbais: o presente no exórdio e na conclusão, de acordo com o cânone da epístola; o passado na narração dos acontecimentos, vistos e observados pelo autor, e apresentada com uma organização interna que pressupõe, de facto, a do diário. 

            O presente intervém igualmente na parte consagrada à narração mas só nos momentos em que Caminha se dirige ao seu interlocutor (el-Rei D. Manuel), explorando sabiamente tal artifício para avivar a escrita e prender a atenção do destinatário da carta, seu primeiro leitor.

            É ainda o tempo o elemento que divide o que se narra, distinguindo-se aqui três níveis de divisão temporal. 

            O primeiro nível, nem sempre respeitado mas profusamente instituído, consiste na divisão por dias (elemento diarístico), de modo a sugerir a dinâmica da viagem; o segundo é determinado por expressões temporais que dividem a jornada e que conferem ao discurso um caráter de autenticidade; o terceiro grau desta evolução temporal, ainda mais preciso, é dado pela minuciosa indicação das horas, embora este particular se vá tornando menos rígido à medida que o autor se concentra na descrição do que lhe é dado a observar.

            A Carta cumpre uma precisa função ideológica, toda centralizada no programa da catequese e da conversão religiosa do "outro". Neste aspecto, e como lhe parece que "não têm, nem entendem em nenhuma crença", Caminha assume-se como intérprete da vontade divina, o que põe em causa as teses da intencionalidade da descoberta: "E logo Nosso Senhor (...) por aqui nos trouxe, creio que não foi sem causa". 

            O texto, porém, não deixa de revelar preocupações de ordem econômica e de maneira bastante explícita. Logo no primeiro contacto com os índios, a atenção dos portugueses concentra-se na tentativa de decifrar a linguagem gestual, seguindo a interpretação que mais interessava os reais objetivos da viagem. 

            A ambigüidade do gesto resolvia-se assim em função do que mais se esperava encontrar na "nova terra", não sendo surpreendente que "ouro" e "prata" apareçam como signos obstinados, ainda que seja para constatar a sua ausência no espaço controlado pela frota. 

            Não conhecendo a real extensão da terra, Caminha opta pela generalização e é certamente este mecanismo a reconduzi-lo, na última parte da Carta, ao programa ideológico do "acrescentamento de nossa santa fé", que obsessivamente apresenta ao rei como um projeto a realizar com a futura colonização.

            A narrativa de Caminha é, além do mais, um instrumento de conhecimento que alarga a própria concepção do mundo. 

            Nela se faz a exaltação da terra recém-descoberta e do homem novo e diverso, contribuindo não pouco para a difusão do mito da natureza edênica e da inocência do outro, este último mito mais tarde assumido por uma Europa desencantada, para o qual transfere, através do conceito do "bom selvagem", a sua necessidade de evasão. 

            Os dois aspectos confluem no texto de modo interdependente, como se um justificasse o seu recíproco e lhe conferisse uma colocação lógica. Com a conquista e colonização, perdurará a idéia da natureza incontaminada, enquanto a imagem do "outro" se irá degradando progressivamente, até pela resistência oferecida ao programa de assimilação.



Fonte: Vestibular1

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